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Lula cobra desculpas por “nove dedos”, Flávio Bolsonaro recua

O segundo bloco do debate da TV Globo entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na noite desta sexta-feira, 23 de outubro, teve nos primeiros minutos o momento mais duro do confronto: Lula elevou o tom, exigiu um pedido de desculpas pelo trocadilho com a deficiência física do adversário e chamou o senador de “miliciano”. Flávio Bolsonaro recuou e pediu perdão. A votação é domingo (25).

A cobrança veio depois de o apresentador informar que Lula pedira direito de resposta no intervalo, por se sentir ofendido, e que a produção avaliava o pedido. A ofensa havia sido feita no primeiro bloco, quando Flávio Bolsonaro disse que “não adianta nada o salário mínimo de R$ 1.621 se você dá com uma mão e tira com os 9 dedos”.

Lula abriu a rodada escolhendo o tema políticas sociais. Perguntou por que Flávio Bolsonaro, quando deputado estadual no Rio de Janeiro, foi o único da bancada a votar contra o aumento da licença-maternidade. O senador respondeu que votou há muito tempo, acreditando que a medida dificultaria a contratação de mulheres, e admitiu que estava errado.

Lula não aceitou. Disse que o adversário não responde “com objetividade” e cobrou explicação para o fato de o senador ter chamado o Bolsa Família de “bolsa farelo”. Quando o tempo de Flávio Bolsonaro começou a correr sem resposta, Lula pediu a palavra.

“Eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando de noite que eu não podia trabalhar. Não vou permitir que o miliciano me chame de nove dedos. Não vou permitir.”

Lula disse que o adversário “nunca trabalhou na vida”, que o primeiro emprego dele foi no gabinete do pai e que a trajetória do senador é de “granfino”. Emendou: “Você vai ter que pedir desculpa. Você vai ter que pedir desculpa porque o povo trabalhador está vendo.”

A deficiência de Lula foi provocada por um acidente de trabalho. Ele perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em 1964, aos 17 anos, quando trabalhava no turno da madrugada na Metalúrgica Independência, em São Paulo, e uma prensa atingiu sua mão.

Flávio Bolsonaro respondeu com o pedido de desculpas. “Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, então eu te peço desculpas de verdade. Não queria te ofender. Te peço desculpas de verdade.”

O recuo veio acompanhado de contra-ataque. O senador perguntou se Lula pediria desculpas aos moradores de rua, aos beneficiários do Bolsa Família, que segundo ele receberam reajuste de “R$ 3 por dia”, às mulheres vítimas de violência e aos 80 milhões de endividados. Disse que a “esperança virou decepção”.

Os dois candidatos pediram direito de resposta e os pedidos foram concedidos. Lula usou o minuto para dizer que passou a vida no mundo do trabalho e que “quem tem que pedir desculpas ao Brasil é a elite brasileira”. Flávio Bolsonaro defendeu a ampliação de penas para maus-tratos a animais.

Na rodada seguinte, Flávio Bolsonaro escolheu dívida pública. Disse que o governo deixará uma dívida de R$ 11 trilhões, que a taxa de juros oficial está em torno de 14% e que a independência do Banco Central, legado do governo Jair Bolsonaro, impede “canetadas”. Perguntou por que as famílias brasileiras estão endividadas.

Lula devolveu com outra pergunta: por que o governo do pai dele fez o Banco Central independente? Na tréplica, disse que o senador copia um projeto dele de compra de dívidas com deságio de até 95% e citou o perdão de quase R$ 15 bilhões anunciado pelo governo. “Não tenta ficar copiando o que eu falo”, disse.

No tema Sistema Único de Saúde (SUS), Lula perguntou como o adversário vai melhorar a saúde “negando” o SUS e cobrou a resposta sobre o “tesouraço”. Citou as mortes na pandemia e disse que Jair Bolsonaro “preferiu debochar, debochar e imitar as pessoas sufocando”. Flávio Bolsonaro respondeu que o SUS salvou o pai dele da facada em 2018, prometeu investir no Instituto Nacional do Câncer (INCA) e criticou a tabela SUS, que paga R10porconsultaeR10porconsultaeR 443 por parto.

O apresentador informou que o pedido de direito de resposta de Flávio Bolsonaro foi negado e encerrou o bloco. Pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro mostrava empate de 50% a 50% nos votos válidos. O confronto sobre a deficiência de Lula deslocou o debate dos temas escolhidos e virou o episódio central da noite.