A Operação Crédito Oculto, deflagrada nesta quinta-feira, 24 de setembro, pela Receita Federal e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços vinculados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas em sete estados. Entre os alvos identificados por Metrópoles, SBT News e UOL está Antonio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos e Participações e personagem de outra investigação: o caminho do dinheiro de Daniel Vorcaro até o fundo usado no financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
O encontro das duas histórias exige uma ressalva decisiva. O comunicado oficial da Receita Federal sobre a Crédito Oculto não menciona Dark Horse, Daniel Vorcaro nem o financiamento do filme. O objeto declarado da operação é a investigação de estruturas financeiras que teriam sido utilizadas para ocultar patrimônio, dissimular a origem de recursos e viabilizar a aquisição de uma distribuidora de combustíveis. Até a manhã de 24 de setembro, não havia informação pública de que documentos ou equipamentos apreendidos nesta operação tratem diretamente do longa-metragem.
A conexão de Freixo com o caso Dark Horse, porém, já ultrapassa uma única reportagem. O Inquérito 5070, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), registra como investigados Antonio Carlos Freixo Júnior, a Entre Investimentos e Participações, o Havengate Development Fund e outros personagens da apuração sobre o financiamento da produção cinematográfica. O mesmo inquérito inclui Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PL. A condição de investigado não representa condenação nem comprovação de crime.
Há também registros sobre as transferências. O SBT News publicou em 22 de setembro que mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram o ex-banqueiro sugerindo, em fevereiro de 2025, que um pagamento ligado ao filme fosse feito “via Entre”. O veículo informou ter analisado um comprovante de transferência de US$ 2 milhões realizada pela Entre ao Havengate Development Fund em 13 de fevereiro daquele ano. Segundo a apuração da Polícia Federal citada pelo SBT, foram sete remessas da Entre para o fundo em 2025, totalizando US$ 12,33 milhões.
O Metrópoles informou nesta quinta-feira que Freixo está entre os alvos da Crédito Oculto e que a Entre aparece nas apurações da Polícia Federal sobre os recursos enviados por Vorcaro ao Havengate. Segundo o veículo, aproximadamente US$ 12 milhões passaram da Entre para o fundo, que administrava valores destinados a Dark Horse.
Freixo também firmou colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O acordo foi homologado pelo ministro André Mendonça, do STF, em 9 de setembro. Reuters, UOL e CNN Brasil noticiaram que a colaboração detalha pagamentos feitos pela Entre ao Havengate e que Freixo atribuiu a Vorcaro a determinação para realizar os repasses. Uma delação homologada autoriza o uso das informações na investigação, mas suas declarações precisam ser confrontadas com provas independentes.
A Crédito Oculto tem objeto próprio e dimensão financeira ampla. A Receita afirma que uma das operações investigadas envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios de uma usina sucroalcooleira. Outra estrutura teria movimentado R$ 100 milhões destinados à aquisição da distribuidora de combustíveis. Uma empresa financeira utilizada nas operações movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025, segundo o Fisco. São indícios investigados, não conclusões judiciais definitivas sobre responsabilidade individual.
É justamente aí que surge a pergunta nova. A Receita e o Gaeco apreenderam materiais ligados a um personagem que já integra formalmente o inquérito sobre o dinheiro de Dark Horse. Ainda não se sabe se esses documentos, celulares ou registros financeiros acrescentarão alguma peça ao rastreamento feito pela Polícia Federal no caso do filme.
Não é correto, portanto, afirmar que a Operação Crédito Oculto investiga Dark Horse. O fato verificável é mais preciso: uma operação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis alcançou Antonio Carlos Freixo Júnior, cuja empresa aparece documentalmente na trilha financeira investigada no caso Dark Horse.
O UOL informou na manhã de 24 de setembro que buscava manifestação dos investigados na Crédito Oculto e ainda não havia recebido resposta. O Estadão também registrou que não havia localizado as defesas até a publicação de sua reportagem.
A partir das apreensões, o ponto relevante será verificar se as duas investigações permanecerão em trilhas separadas ou se os novos documentos revelarão operações comuns. Até que isso aconteça, qualquer afirmação de que a Crédito Oculto encontrou dinheiro destinado ao filme ultrapassa o que as evidências públicas permitem dizer.
Continue acompanhando no Blog do Esmael o rastreamento do dinheiro de Dark Horse, o caso Banco Master e seus efeitos na eleição presidencial de 2026.
O que você precisa saber:
- Perícia de Dark Horse não rastreou dinheiro ligado a Vorcaro. Leia no Blog do Esmael
- Mendonça autoriza PF a investigar verba de Dark Horse. Leia no Blog do Esmael
- Cobertura de Dark Horse. Acompanhe a cobertura

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




