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Flávio Bolsonaro apela a “nove dedos” em debate com Lula

“Não adianta nada, Lula, o salário mínimo ser de R$ 1.621 se você dar com uma mão e tira com os 9 dedos.”

O primeiro bloco do último debate entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na TV Globo, na noite desta sexta-feira, 23 de outubro, concentrou os embates que marcaram a reta final do segundo turno: o senador titubeou ao responder sobre infraestrutura, prometeu reajuste do salário mínimo acima da inflação depois de Lula repetir a cobrança e recorreu a um trocadilho com a deficiência física do adversário. A votação é domingo (25).

O bloco teve seis temas: infraestrutura e exportação, seguidos pelas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Sul, Norte e Nordeste. Cada candidato fez três perguntas, com três minutos para pergunta e réplica e o mesmo tempo para resposta e tréplica. Flávio Bolsonaro abriu o confronto.

A primeira pergunta cobrou investimentos para escoar a produção. Flávio Bolsonaro citou relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) com mais de 11,5 mil obras paralisadas e disse que o país virou um “cemitério de obras”. Perguntou como Lula entregaria a infraestrutura do mapa se, em quatro anos, não concluiu as obras necessárias.

Lula respondeu com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que chamou de maior da história: R$ 1,7 trilhão em obras, quase R$ 800 bilhões já executados, segundo o candidato. Disse ter herdado 6 mil obras paradas e listou a BR-319, a Transnordestina, a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), a Ferrovia de Integração Leste-Oeste (Fiol), a Serra das Araras, o túnel de Santos, o novo porto de Manaus, o VLT de Salvador e a transposição do rio São Francisco.

Na réplica, Flávio Bolsonaro prometeu “rasgar o Brasil de ferrovias”, concluir a Transnordestina até os portos de Suape (PE) e Pecém (CE), construir o eixo sul da ferrovia e manter o pedágio zero para motociclistas. Encadeou anúncios sem apresentar custo, prazo ou fonte de financiamento. Titubeou ao repetir o alcance dos pontos de internet instalados no governo do pai: “mais de 11 milhões, até ainda mais de 11 milhões de brasileiros aonde gente?”

Lula chamou a resposta de decorada. “Meu adversário parece aqueles alunos que se preparam para o vestibular, decoram, mas não aprendem”, disse. Pediu que o eleitor consultasse o Google para comparar os investimentos federais.

Na rodada do Sudeste, Lula perguntou quanto custaria o salário mínimo se o PT não tivesse reajustado o piso acima da inflação. Ele mesmo respondeu: R$ 900. Flávio Bolsonaro não enfrentou o número. Falou em dívida, juros e inflação e devolveu: “Lula, por que você endividou o povo brasileiro desse jeito?”

Lula repetiu a pergunta. “Você nunca responde a pergunta. Vai ou não vai cortar o aumento do salário mínimo?” Flávio Bolsonaro assumiu o compromisso duas vezes. “Com certeza eu vou reajustar o salário mínimo acima da inflação, aposentadoria acima da inflação”, disse. Depois de nova cobrança, repetiu: “Eu vou falar pela segunda vez: eu vou reajustar as aposentadorias acima da inflação.” Lula cobrou o mesmo para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), os pensionistas e os 26 milhões de aposentados que recebem o piso.

O tema seguinte foi a tarifa zero. Lula lembrou que defende transporte público gratuito nos fins de semana e perguntou se o adversário era contra. Flávio Bolsonaro disse ser “super a favor” da tarifa zero para ônibus nos fins de semana. Em seguida, emendou: “Não adianta nada, Lula, o salário mínimo ser de R$ 1.621 se você dar com uma mão e tira com os 9 dedos.”

A frase faz referência à falta de um dedo da mão esquerda de Lula. Depois do trocadilho, o senador seguiu para a reforma tributária, disse que o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) pode chegar a 28% e chamou a carga de “a maior do mundo”. Lula não respondeu à provocação no primeiro bloco.

No segundo bloco, Lula exigiu um pedido de desculpas pela fala. Flávio Bolsonaro recuou: pediu desculpas “se o ofendeu” e disse que não foi a intenção.

Na rodada do Centro-Oeste, Flávio Bolsonaro acusou o governo de tratar quem produz alimento como “fascista” e perguntou por que Lula “humilha” o agronegócio. Lula respondeu com um “dá um Google” e afirmou que nunca se exportou tanto: 700 novos mercados abertos e superávit comercial de quase R$ 85 bilhões, números que atribuiu ao próprio governo.

Na rodada do Sul, Lula voltou ao salário mínimo e perguntou se o reajuste acima da inflação valeria para ativos e aposentados. Flávio Bolsonaro respondeu que sim. Lula insistiu, e o senador reagiu: “Você está com um problema que não está ouvindo.”

Flávio Bolsonaro acusou Lula de abandonar o Rio Grande do Sul na tragédia de 2024 e prometeu ajuda ao governador eleito Zucco. Estendeu o compromisso a Sergio Moro, governador eleito do Paraná, e disse que vai usar a Marinha no combate ao tráfico de armas e drogas no Porto de Paranaguá. Não apresentou efetivo, prazo ou custo.

Na rodada do Norte, Flávio Bolsonaro perguntou sobre saneamento e disse que a bancada do PT votou contra o Marco Legal do Saneamento. Lula respondeu que o adversário “não conhece o Brasil” e citou a crise de oxigênio em Manaus: “Acho que ele só ouviu falar de Manaus. Quando o pai dele apareceu na televisão rindo e imitando uma pessoa morrendo asfixiada porque não tinha oxigênio.”

Flávio Bolsonaro classificou a fala como fake news, disse que o vídeo foi tirado de contexto e afirmou que o pai criticava a orientação de esperar a falta de ar para procurar hospital. Em seguida, devolveu: “Quem é que governa o Brasil, é você ou é o Google?”

Na última rodada, Lula perguntou o que o adversário faria no Nordeste. Flávio Bolsonaro prometeu uma ferrovia de Salvador a São Luís, criticou a presença do Comando Vermelho em estados nordestinos e prometeu reajuste do Bolsa Família. Lula listou universidades, institutos federais e a transposição do São Francisco.

O primeiro bloco terminou sem que nenhum dos dois apresentasse planilha de custos para as promessas que fizeram. Pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro mostrava empate de 50% a 50% nos votos válidos. O Blog do Esmael acompanhou o confronto desde o pré-debate, às 20h.