O efeito do Fla-Flu político pós-Bolsonaro

  • Desejo de eliminação da diferença é um dispositivo de morte

Por Jessica Nevel*

Este período de pós-eleições e pós-Bolsonaro está dando o que falar. Há um clima de Fla-Flu pairando no ar e, com ele, um tanto de animosidade entre pessoas que votaram em candidatos diferentes. Lula venceu Bolsonaro no segundo turno.

Dentre os diversos grupos, há aqueles que se intitulam conservadores identificados aos valores morais e religiosos, que prezam pela tradicional família brasileira. Motivados pela manutenção dos valores tradicionais e cristãos, votaram majoritariamente na chapa que propõe ‘Deus, pátria e família’, qual seja, em Bolsonaro.

Há outros grupos que se intitulam progressistas e que buscam entre outras coisas uma pauta de igualdade social, que estimule políticas sociais e afirmativas, buscando a melhor distribuição de renda, preservação do meio ambiente, estímulo e acesso à arte e à educação. Esses se identificam com Lula.

Cada qual não arreda o pé de suas convicções. Como era de se esperar, isso tomou conta de muitos ambientes. Entre eles, o escolar. Crianças e adolescentes que provavelmente repetem o que escutam dentro de casa, trazem e compartilham sua lógica dentro do colégio. Espera-se que manifestações devam acontecer, serem escutadas e acolhidas. E se isso acontece com tom de intolerância? Quando esse ruído chega até nós pelas crianças é preciso parar para pensar.

Escutar frases vindas de alunos de colégios particulares de Curitiba, tais como “nordestinos deviam mesmo beber água do mar” ou “aqui é um colégio cristão, por isso os esquerdistas não deveriam estar aqui” ou “você é fascista”, repetidas por crianças e adolescentes requer que pensemos como estamos lidando com a diferença.

Ainda nesta semana circulou nas redes sociais um post em que um parlamentar escreveu em suas mídias “voltem do esgoto que saíram”, referindo-se às manifestações de crianças e adolescentes de escolas particulares. É chocante porque se espera do político que ele consiga articular a palavra em prol da construção de uma pauta inclusiva e não excludente.

A máxima cristã “ama o próximo como a ti mesmo” parece que não está funcionando para aqueles defendem valores religiosos. Tampouco o lema de igualdade social e inclusão também não está vigorando para os que se intitulam progressistas.

Parece que há um padecimento justamente por aquilo que é defendido. Como se houvesse uma cisão: eu e eles. O que sou ‘eu’ é compreendido como algo bom e o que é diferente do ‘eu’ é ruim e precisa ser eliminado. #sqn

O desejo de eliminação da diferença é um dispositivo de morte.

Não há um eu e eles. Há um ‘nós’, que precisa ser evocado e tolerado, mesmo com tantas ambivalências. Afinal, vida de verdade é plural e há um Brasil inteiro a ser construido.

Jessica Nevel, psicanalista, escreve sobre Cultura e Sociedade.

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