O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar a antiga condução do Banco Central (BC) e defendeu a regulamentação das redes sociais durante entrevista concedida a rádios nesta quinta-feira (6). Para o chefe do Executivo, a política monetária atual é uma “arapuca” herdada e não pode ser modificada abruptamente, enquanto o ambiente digital precisa de regulação para evitar abusos.
“O BC deixou uma arapuca”
Lula reforçou as críticas ao comando anterior do Banco Central ao comentar a política de juros. Segundo ele, a instituição não pode “dar um cavalo de pau de uma hora para outra”, pois isso poderia gerar instabilidade econômica. O presidente destacou que a Selic foi elevada de forma sucessiva durante o governo anterior [Jair Bolsonaro, do PL] e que essa decisão teve consequências profundas na economia brasileira.
Atualmente, o BC é presidido por Gabriel Galípolo, ex-diretor de política monetária, indicado pelo próprio Lula para substituir Roberto Campos Neto. Apesar da mudança na liderança, o Comitê de Política Monetária (Copom) segue autônomo e manteve as diretrizes estabelecidas anteriormente. A Selic, que havia entrado em queda no ano passado, voltou a subir a partir de setembro, acompanhando projeções inflacionárias.
Para Lula, é preciso paciência e planejamento para reverter esse cenário sem comprometer a estabilidade econômica. “Não podemos desmontar essa arapuca de uma hora para outra. Precisamos encontrar um caminho que beneficie o país”, afirmou.
Regulação das redes sociais entra na pauta do governo
Outro ponto de destaque na entrevista foi a insistência de Lula na regulamentação das redes sociais. O presidente afirmou que “no digital não tem lei” e que as plataformas permitem a disseminação de fake news sem responsabilização. Segundo ele, o Congresso precisa atuar para estabelecer regras claras para o ambiente virtual.
A proposta de regulação já encontra eco no Supremo Tribunal Federal (STF), onde o ministro Alexandre de Moraes tem sido um dos principais defensores de maior controle sobre as big techs. Moraes afirmou recentemente que as redes sociais “não são terra sem lei” e que a Justiça Eleitoral já demonstrou sua capacidade de fiscalização.
A regulamentação é vista pelo Planalto como uma prioridade para 2025 e deve ser debatida amplamente com o Congresso Nacional. O governo argumenta que a falta de regras claras facilita a manipulação da opinião pública e compromete a democracia.
Big Techs reagem
Empresas como Meta (dona do Facebook, Instagram e Threads) e X (antigo Twitter) têm feito movimentações para tentar evitar medidas mais restritivas no Brasil. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, anunciou mudanças no monitoramento de conteúdo em suas plataformas, mas sem interferência estatal. A decisão acompanha a tendência de outros líderes globais, como Elon Musk e Donald Trump, que defendem menos controle governamental sobre o setor.
No STF, entretanto, a visão é diferente. Ministros temem que a flexibilização das regras nas redes sociais facilite a proliferação de desinformação e prejudiquem o próximo ciclo eleitoral no Brasil.
Disputa política e impacto econômico
A ofensiva de Lula contra à antiga diretoria do BC e as redes sociais ocorre em um momento de forte polarização política. Enquanto o governo busca emplacar suas pautas, a oposição argumenta que medidas como a regulação digital podem levar à censura e que a pressão sobre o BC compromete a independência da instituição.
A discussão promete se intensificar nos próximos meses, com impactos diretos na economia e no debate sobre liberdade de expressão no Brasil. O Copom realizará sua nova reunião em março, quando, segundo a ata do órgão, poderá aumentar em mais um ponto a taxa Selic.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




