Irã mira Diego Garcia e expõe alcance que muda a guerra

O Irã levou a guerra neste sábado (21) a um ponto que Washington e Londres tratavam como retaguarda segura. Teerã lançou dois mísseis balísticos contra a base conjunta de EUA e Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano Índico, a cerca de 4 mil quilômetros do território iraniano. Nenhum projétil atingiu a instalação, mas o recado político e militar foi dado: a guerra já não cabe mais apenas no mapa do Oriente Médio.

A base de Diego Garcia não é um posto qualquer. Ela é uma peça central da projeção militar anglo-americana e opera sob um arranjo que preserva as operações dos EUA no arquipélago por 99 anos. Na véspera, Londres havia autorizado o uso de bases britânicas, incluindo Diego Garcia, para ataques americanos contra posições iranianas ligadas à crise no Estreito de Ormuz. A resposta iraniana foi mirar justamente esse nervo logístico do Ocidente.

O dado mais importante não é o fracasso do ataque, mas o alcance revelado. A Associated Press registrou que a tentativa contra Diego Garcia sugere que o Irã dispõe de mísseis de longo alcance acima do que vinha sendo admitido até aqui. A Reuters lembrou, em reportagem publicada um dia antes, que o arsenal iraniano conhecido tinha alcance público de até 2 mil quilômetros. Em outras palavras, a guerra entrou numa zona de incerteza estratégica muito maior do que Washington e Tel Aviv diziam controlar.

Isso muda também o cálculo europeu. Não porque haja, neste momento, prova pública de que o Irã já tenha demonstrado capacidade operacional confirmada para atingir qualquer capital do continente, mas porque o raio de preocupação avançou e o flanco sul da Europa entrou de vez na conta militar. A AP revelou ainda que os EUA deslocaram interceptores Patriot e outros meios de defesa da Europa para o Oriente Médio, abrindo preocupação entre autoridades americanas e europeias sobre lacunas nas defesas aéreas do continente.

A contradição de Donald Trump ficou ainda mais exposta. O presidente americano voltou a falar em “encerrar”, ou seja, em reduzir a operação contra o Irã, mas ao mesmo tempo enviou mais 2,5 mil fuzileiros navais e embarcações de assalto anfíbio para a região. A retórica é de recuo. O movimento real é de ampliação do conflito.

Politicamente, o ataque a Diego Garcia piora uma guerra que já cobra preço alto dentro dos EUA. Pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 55% dos americanos dizem sentir no bolso a alta dos combustíveis, enquanto a aprovação de Trump no custo de vida caiu para 29%. Não por acaso, a Reuters avaliou neste sábado que, três semanas depois do início da ofensiva, a guerra já escalou além do controle narrativo do presidente.

Na economia global, o efeito é igualmente imediato. A Reuters informou que a guerra já provocou o pior choque energético da história, segundo a Agência Internacional de Energia, com interrupção de cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás natural liquefeito que passa por Ormuz. A União Europeia já discute afrouxar metas de estocagem de gás por causa da disparada dos preços, num sinal de que o conflito deixou de ser apenas militar e passou a redesenhar inflação, juros e custo de vida do outro lado do Mediterrâneo.

Diego Garcia mostrou, na prática, que o Irã ainda consegue surpreender o eixo EUA-Israel mesmo sob bombardeio pesado. Quando Teerã aponta mísseis para uma base a milhares de quilômetros de distância, o discurso de vitória rápida perde força e a guerra muda de escala. Agora, já não se discute só quem controla Ormuz. Discute-se até onde essa guerra pode ir e quem, no Ocidente, está realmente preparado para o próximo passo.

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