Índice de Tópicos
- Gleisi faz agenda federal com obra, valor e município
- Curi disputa com máquina estadual, prefeitos e planilha municipalista
- Filipe Barros aposta em palanque ideológico e bolsonarismo orgânico
- Deltan Dallagnol circula com Moro e tenta transformar cassação em pauta
- Cristina Graeml vende estrada e tenta mostrar que Curitiba virou Paraná
- Alvaro Dias reaparece como composição do MDB
- Senado virou auditoria de agenda
A corrida ao Senado no Paraná deixou de ser uma disputa apenas de nomes conhecidos, pesquisas e redes sociais. O cruzamento das agendas públicas dos pré-candidatos mostra que Gleisi Hoffmann (PT) e Alexandre Curi (Republicanos) largam com maior volume de entregas concretas, embora operem máquinas distintas: ela aciona Lula, Itaipu, PAC e ministérios; ele aciona Assembleia Legislativa do Paraná, governo Ratinho Junior, prefeitos, asfalto, creches, hospitais e municipalismo.
A diferença importa porque cada eleitor terá dois votos para o Senado em 2026. Não basta ser lembrado. Será preciso mostrar presença, município, entrega, dobradinha e capacidade de transferir voto fora da própria bolha.
A checagem das agendas entre 8 e 22 de junho, realizada pelo Blog do Esmael, com reforço nos registros de Facebook, Instagram, sites oficiais e imprensa local, muda a fotografia inicial da disputa. Gleisi não está fazendo apenas discurso nacional. Curi não é apenas candidato de gabinete. Cristina Graeml não pode ser tratada como fenômeno restrito a Curitiba. Filipe Barros e Deltan Dallagnol não estão parados, mas suas agendas aparecem mais amarradas ao palanque ideológico de Sergio Moro. Alvaro Dias, por sua vez, reaparece como nome de composição no MDB.
Gleisi faz agenda federal com obra, valor e município
Gleisi Hoffmann aparece com uma sequência concentrada de agendas entre 18 e 22 de junho. O eixo é claro: transformar governo Lula, Itaipu, PAC e políticas públicas federais em presença concreta no Paraná.
Em 18 de junho, em Castro, Gleisi participou do lançamento do Projeto Moradias II. A agenda envolve a construção de 160 moradias populares sustentáveis, com R$ 34,5 milhões em investimentos. O pacote também inclui R$ 2,3 milhões voltados à agricultura familiar e à gestão de resíduos sólidos, com biodigestor, caminhão de coleta e equipamentos para valorização de recicláveis.
No mesmo dia, em Colombo, Gleisi esteve no lançamento do Programa Territórios Verdes da Cultura ao lado da ministra Margareth Menezes. A agenda incluiu a entrega de três unidades itinerantes MovCEU para Fazenda Rio Grande, Quedas do Iguaçu e Ponta Grossa. Também houve investimentos culturais locais: R$ 11,6 mil para o CEU das Artes, R$ 505 mil para ampliação do Museu Municipal Cristóforo Colombo, R$ 57 mil para livros e R$ 59 mil para expositores.
Em 19 de junho, na Lapa e em São João do Triunfo, Gleisi participou da assinatura da ordem de serviço para a construção da nova ponte sobre o Rio Iguaçu. A obra tem R$ 10,5 milhões da Itaipu. A agenda também incluiu visita à associação de catadores de materiais recicláveis, com equipamentos como caminhão-baú, empilhadeira, esteira e prensa, dentro do programa de gestão de resíduos sólidos.
Em 20 de junho, em União da Vitória, Gleisi participou da inauguração do refeitório do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e da entrega do sistema de geração de energia solar da Clínica Médica São Camilo. O refeitório recebeu R$ 1,4 milhão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O sistema solar fotovoltaico recebeu R$ 249 mil da Itaipu. A unidade de saúde deve economizar cerca de R$ 100 mil por ano na conta de energia.
Em 22 de junho, em Foz do Iguaçu, Gleisi participou do lançamento de cursos gratuitos de direitos humanos do Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ObservaDH) e da abertura da edição 2026 do programa Empreendendo Futuro para estudantes da rede pública. A agenda informou R$ 16,6 milhões para modernização da plataforma ObservaDH e produção de material educativo, além de R$ 1 milhão investido pela Itaipu Parquetec no Empreendendo Futuro.
O padrão da agenda é politicamente relevante. Gleisi tenta mostrar que não é apenas a voz de Lula no Paraná. Ela busca apresentar obra, convênio, valor, equipamento público e município beneficiado. A pré-campanha petista entendeu que, num estado em confronto com conservadores, a marca Lula precisa ser traduzida em entrega local.
Curi disputa com máquina estadual, prefeitos e planilha municipalista
Alexandre Curi tem outro tipo de volume. O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná não aparece apenas em reuniões empresariais ou atos de cúpula. Seu material público e suas redes estruturam uma pré-campanha baseada em prestação de contas, municipalismo, obras estaduais, repasses, creches, asfalto, hospitais, entidades e prefeitos.
A biografia institucional de Curi ajuda a entender o método. Ele foi votado em 376 municípios em 2022, o equivalente a 95% das cidades do Paraná. A Assembleia informa que, quando Curi foi 1º secretário, mais de R$ 800 milhões foram devolvidos aos cofres do Estado e direcionados aos municípios. O mesmo material associa sua atuação ao programa Asfalto Novo, Vida Nova, presente em 377 municípios, e à destinação de R$ 100 milhões, em 2024, para 300 creches em 258 cidades, além de mais R$ 200 milhões em 2025.
Curi também vincula sua atuação ao apoio financeiro a hospitais como Pequeno Príncipe e Erasto Gaertner, à Assembleia Itinerante, a entidades filantrópicas e à destinação de R$ 2,6 bilhões para cidades de todas as regiões do Paraná. É uma narrativa de escala: menos discurso ideológico e mais planilha de atendimento municipal.
Nos registros recentes, Curi aparece em Londrina, Campo Mourão, São José dos Pinhais, Vale do Ivaí, Norte do Estado, Amuvi, Amocentro, Pinhais, Quedas do Iguaçu, Vale do Ribeira, entidades sociais, setor produtivo e reuniões de prefeitos. Em São José dos Pinhais, por exemplo, reuniu 1.600 pessoas em prestação de contas, com prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, secretários municipais e lideranças da Região Metropolitana de Curitiba. Naquele ato, destacou R$ 150 milhões do governo estadual para melhorias urbanas no município.
A competição entre Gleisi e Curi, portanto, não é entre uma candidata com entrega e outro sem entrega. É entre duas máquinas. Gleisi apresenta a vitrine federal de Lula no Paraná. Curi apresenta a vitrine estadual de Ratinho Junior e da Alep nos municípios.
Essa diferença pode organizar a eleição ao Senado. A esquerda tentará dizer que Gleisi leva recurso federal, PAC, Itaipu e ministérios. O governo estadual tentará responder que Curi tem prefeitos, asfalto, creches, hospitais e presença municipal acumulada.
Filipe Barros aposta em palanque ideológico e bolsonarismo orgânico
Filipe Barros aparece em outro eixo. O deputado federal do PL tem presença digital forte, discurso nacionalizado e vínculo direto com o bolsonarismo. Sua agenda mais visível, no recorte recente, foi a movimentação com Sergio Moro e Deltan Dallagnol em Corbélia e Cascavel, no dia 18 de junho.
O encontro em Corbélia foi marcado como agenda de lideranças. Em Cascavel, o evento regional do Novo marcou o lançamento da pré-candidatura de Henrique Mecabô a deputado federal. Filipe apareceu ali como peça do arranjo PL/Novo, com Moro ao governo e Deltan na disputa ao Senado.
A força de Filipe está na identidade ideológica. Ele fala com o eleitor que quer Senado como trincheira contra Lula, contra o Supremo Tribunal Federal e a favor do bolsonarismo. O problema é que essa estratégia não entrega, no mesmo volume de Gleisi e Curi, uma lista de obras, valores, municípios e equipamentos públicos.
A pré-campanha de Filipe tem militância e palanque. Ainda precisa mostrar capilaridade administrativa e municipal se quiser disputar o segundo voto fora da bolha mais fiel da direita.
Deltan Dallagnol circula com Moro e tenta transformar cassação em pauta
Deltan Dallagnol aparece na mesma engrenagem PL/Novo. A agenda em Corbélia e Cascavel, ao lado de Moro e Filipe, reforça sua função no bloco: mobilizar o eleitor lavajatista e manter viva a narrativa de perseguição política após a cassação de seu mandato de deputado federal.
Deltan tem ativo digital, reconhecimento nacional e memória da Lava Jato. Mas sua agenda concreta recente aparece menos associada a entrega municipal e mais vinculada a eventos ideológicos, organização partidária e palanque com Moro.
O ponto sensível é a sobreposição com Filipe. Os dois disputam parte do mesmo eleitor conservador, antipetista e anti-STF. A dobradinha pode funcionar, mas também pode gerar disputa interna pelo mesmo segundo voto. Além desse canibalismo, o ex-deputado cassado precisa provar que está elegível para 2026.
Cristina Graeml vende estrada e tenta mostrar que Curitiba virou Paraná
Cristina Graeml tem outro ativo: circulação. Ela afirma ter visitado mais de 96 cidades, percorrido mais de 40 mil quilômetros, conversado com mais de 60 prefeitos, centenas de vereadores e lideranças. O dado é importante porque responde à maior dúvida sobre sua pré-candidatura ao Senado: Cristina é um fenômeno estadual ou ainda é uma lembrança forte da eleição de Curitiba em 2024?
A estratégia dela passa por vídeos, entrevistas, presença em cidades, conversa com lideranças e narrativa de direita conservadora. Cristina tenta provar que sua votação em Curitiba não foi episódio isolado, mas ponto de partida para uma campanha estadual.
O limite é a estrutura. Estrada e rede social mostram disposição, mas o Senado exige partido, dobradinha, prefeitos, vereadores, financiamento, tempo de campanha e palanque regional. Cristina tem audiência e identidade. Precisa demonstrar base organizada.
Alvaro Dias reaparece como composição do MDB
Alvaro Dias tem biografia que nenhum outro nome da disputa tem: foi governador, senador, deputado federal e candidato a presidente da República. Mas, no recorte recente, sua movimentação pública aparece mais como composição partidária do que como agenda própria de estrada.
Em 20 de junho, Alvaro esteve no lançamento da pré-candidatura de Rafael Greca ao governo pelo MDB, na Sociedade Thalia, em Curitiba. O evento o apresentou como nome importante para uma futura chapa ao Senado.
A força de Alvaro está na memória eleitoral. A fragilidade está no ritmo. Enquanto Gleisi mostra entrega federal, Curi mostra municipalismo estadual, Cristina mostra estrada e a direita mostra caravana, Alvaro aparece mais dependente do desenho final do MDB e da aliança de Greca.
Senado virou auditoria de agenda
A leitura final é mais dura para todos. O Senado virou uma auditoria pública de agenda.
Gleisi precisa mostrar que as entregas federais chegam ao eleitor que não vota automaticamente no PT. Curi precisa provar que a máquina estadual não é apenas extensão do Palácio Iguaçu. Filipe precisa sair do discurso ideológico e mostrar presença municipal própria. Deltan precisa superar a incerteza jurídica e reduzir a dependência do palanque de Moro. Cristina precisa transformar estrada em estrutura. Alvaro precisa transformar memória em campanha ativa.
A disputa pelas duas vagas ao Senado no Paraná começa a se organizar em três blocos: entrega federal, entrega estadual e palanque ideológico. Gleisi lidera o primeiro. Curi lidera o segundo. Filipe, Deltan e Cristina brigam pelo terceiro, com Alvaro tentando encaixar o MDB no arranjo.
Em 2026, a pergunta que vai pesar não será apenas “quem aparece na pesquisa?”. Será “quem esteve no município, o que levou, quanto investiu, quem entregou e com quem vai dividir o segundo voto?”.
Acompanhe a cobertura completa da sucessão no Paraná no Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




