O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, entrou nesta quinta-feira (14) no roteiro que a direita passou anos atribuindo aos artistas: dinheiro grande para cinema, mecenas interessado e discurso moral tentando sobreviver ao próprio áudio. A diferença é que, no caso do filme sobre Jair Bolsonaro, o nome no centro da cobrança não é o Ministério da Cultura. É Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Pensando bem, pra que Lei Rouanet se a direita tem Vorcaro?
A Lei Rouanet, tão chutada em palanque, tem formulário, Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), análise de admissibilidade, publicação no Diário Oficial da União (DOU), captação autorizada, Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), monitoramento e prestação de contas. O caminho pode ser criticado, aprimorado e fiscalizado, mas existe uma trilha pública.
No filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, o caminho revelado pela imprensa tem outra estética: áudio, mensagem, cobrança, constrangimento e a palavra “irmão” circulando entre senador e banqueiro. Flávio Bolsonaro foi gravado negociando repasse de R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o longa, informação originalmente revelada pelo Intercept Brasil.
A crônica brasileira não precisa inventar nada quando a realidade já entrega a ironia pronta. Durante anos, a Lei Rouanet foi apresentada por setores bolsonaristas como símbolo de “mamata”, como se todo artista carregasse um recibo suspeito no bolso e todo projeto cultural fosse uma conspiração contra a família tradicional. Em 2018, Jair Bolsonaro dizia que a lei precisava ser revista e atacava a ideia de “dar 10 milhões de reais para cantora famosa”.
Agora, o número que ronda o filme do clã não é de R$ 10 milhões. É de R$ 134 milhões, segundo a apuração que sacudiu Brasília. E a figura do patrocinador privado não é um empresário qualquer posando para foto em vernissage. É o dono do Banco Master, tratado pela Reuters como banqueiro preso e personagem de um escândalo que já virou problema político para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro nega irregularidade. O direito ao contraditório é fundamental porque fato e acusação não são a mesma coisa. O senador afirma que se tratava de busca por patrocínio privado para um filme sobre a história do pai. O ponto político, porém, não desaparece com a palavra “privado”. A pergunta pública é outra: por que um pré-candidato que fazia discurso contra o “sistema” pedia dinheiro a um banqueiro no centro do caso Master?
A Lei Rouanet, com todos os seus defeitos, obriga o produtor cultural a aparecer no cadastro, mostrar orçamento, captar dentro de regras e prestar contas. No universo paralelo da direita moralista, bastaria chamar o banqueiro de “irmão”, explicar o filme como missão familiar e torcer para a bilheteria da indignação cobrir o rombo político.
A direita descobriu, sem admitir, que cultura custa caro. Filme custa caro. Ator internacional custa caro. Diretor custa caro. Equipe custa caro. A diferença é que, quando o projeto é dos outros, vira “mamata”. Quando é do clã, vira “patrocínio privado”, “história do meu pai” e “não há nada de errado”.
A contradição pesa porque Flávio Bolsonaro não é apenas filho de Jair Bolsonaro. É senador da República, pré-candidato ao Palácio do Planalto e herdeiro político de um campo que transformou a cultura em inimiga eleitoral. A revelação não prova, por si só, crime no financiamento do filme. Mas prova o suficiente para rasgar a fantasia moral de quem passou anos vendendo pureza contra artistas, produtores e leis de incentivo.
O caso também empurra a velha pergunta para o colo certo: o problema nunca foi o dinheiro na cultura. O problema é quem controla o dinheiro, quem aparece como beneficiário, quem fiscaliza a origem e quem presta contas ao país. Quando o artista busca incentivo aprovado, a direita grita. Quando o bolsonarismo busca banqueiro, pede compreensão.
A crônica termina onde a política começa: a Lei Rouanet tem fila, regra e prestação de contas; Vorcaro tem áudio, banco quebrado e um senador cobrando dinheiro para filme de família.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




