Eleição na Câmara: momento político exige nitidez e autonomia da esquerda

Por Milton Alves*

O debate sobre a futura eleição para a mesa diretora da Câmara dos Deputados é revelador dos atuais impasses da esquerda – sem rumo tático imediato, dividida, e sem iniciativa política e ideológica no parlamento e na base da sociedade.

As movimentações no parlamento indicam três grandes blocos em formação para a disputa: O bolsonarismo aliado com o Centrão (PP, PSD, PL, parcela do PSL, Avante, Solidariedade com mais de 180 votos), a velha direita neoliberal – DEM, MDB, PSDB, Cidadania e PV – com aproximadamente 160 votos. E os partidos de esquerda e centro-esquerda PT, PSOL, PCdoB, PDT, PSB e Rede com 133 parlamentares.

Na esquerda, predomina uma postura rebaixada da disputa que aponta para uma aposta na aliança com a direita neoliberal em nome de evitar o “mal maior”, o que seria representado por uma vitória do bloco bolsonarista e do neocentrão, segundo essa visão. Além disso, há setores que flertam abertamente com uma mera barganha de espaços na mesa diretora e nas comissões, abrindo mão de qualquer nível de confronto e de politização em torno de temas programáticos: fim do teto dos gastos, por exemplo.

A reunião da executiva nacional do PT durante a semana foi uma demonstração de tibieza quando decidiu postergar o debate, adiando a definição da proposta de uma candidatura e de uma plataforma. Como principal partido e maior bancada parlamentar na Câmara dos Deputados, uma decisão do PT seria fundamental para vertebrar uma alternativa em bloco do campo de esquerda e dos progressistas na disputa.

As articulações políticas na Câmara dos Deputados e no Senado ocorrem em meio ao crescente esgarçamento da situção econômica e social, agravada ainda mais pela gestão criminosa, genocida, da crise sanitária pelo governo Bolsonaro e da aprovação de medidas de desmonte dos direitos sociais. A deformação do Fundeb é um exemplo da aliança sagrada entre a extrema-direita e a velha direita neoliberal. A bolada nas costas da Esquerda foi histórica. A tão festejada vitória anterior na questão do Fundeb virou fumaça em questões de horas pelo arranjo entre as turmas de Bolsonaro e de Maia. Repito aqui uma sentença atribuída ao guerrilheiro Ernesto Che Guevara que disse “nunca se pode confiar na burguesia, nem um tantinho assim…”.

Pois bem, voltemos especificamente ao tema. Que posição a esquerda deve adotar no curso da disputa pelo comando do Congresso Nacional? A esquerda tem que demarcar para o conjunto da sociedade a sua posição, com clareza e nitidez, apresentado um candidato próprio e uma plataforma em defesa do povo contra a política de fome, miséria e morte do governo Bolsonaro, essa é a primeira questão; segundo, fazer a disputa política ao mesmo tempo contra o bolsonarismo e a velha direita neoliberal e, terceiro, abandonar qualquer veleidade de cretinismo parlamentar de priorizar cargos e posições. Até porque a esquerda precisa deslocar o centro da disputa política para a rua, se capacitando no sentido de canalizar uma possível explosão social e a indignação que já fermenta na base da sociedade.

Na atual composição da Câmara e do Senado é ampla a maioria dos parlamentares apoiadores da agenda neoliberal de desmonte dos direitos e da soberania da nação. Também são majoritários os defensores de teses obscurantistas e conservadoras. É possível, pontualmente, algum tipo de acordo em defesa das prerrogativas democráticas em geral, o que foi praticado em determinadas situações. Neste sentido, o terreno é adverso e controlado por essa ampla maioria a serviço dos partidos das classes dominantes. Qualquer avanço significativo a favor do povo só seria possível de fora para dentro, com pressão de massas mobilizadas.

Portanto, o centro dos esforços políticos da esquerda no parlamento deveria se concentrar na denúncia política vigorosa do governo neoliberal e autoritário de Bolsonaro e na demarcação programática com os velhos partidos das classes dominantes. Encarar a disputa a partir desse ponto de vista significa uma aposta na luta social e na construção de um bloco democrático-popular impulsionado pela esquerda. Fora disso, é a continuidade de uma ação política rebaixada, que abre caminho para o “frente amplismo” e a conciliação.

A encruzilhada da esquerda na atualidade é entre a decisão de abrir uma via política própria, um caminho independente sustentado pelo protagonismo popular, ou sucumbir à reboque do projeto da velha direita de continuidade da agenda neoliberal com aparência democrática. Um dos capítulos dessa disjuntiva será vivido nas próximas eleições para as mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado em fevereiro de 2021.

*Milton Alves é ativista político e social. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ e ‘A Saída é pela Esquerda’ [ambas pela Kotter Editorial].

Google caiu antes que Bolsonaro

Presidenta Dilma faz 73 anos e redes sociais pedem ‘Volta Dilma’

O sonho da Presidência da Câmara