Trump prolonga guerra com Irã e reacende álibi dos juros altos no Brasil

O presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, avisou neste domingo (15) que não está pronto para buscar um acordo para encerrar a guerra com o Irã, enquanto Teerã reafirma disposição para um confronto longo e o Estreito de Ormuz segue sob forte tensão, empurrando o petróleo para perto de US$ 100 e recolocando diesel, inflação e juros no centro da crise global.

É por isso que esta continua sendo a manchete de abertura, aqui no Blog do Esmael e nos grandes veículos do planeta. A escalada no Oriente Médio oferece, inclusive, o pretexto perfeito para os donos do dinheiro manterem o Brasil refém da maior taxa de juros real do mundo.

Não se trata apenas de mais um capítulo militar na região. O que está em jogo agora é o preço da energia, o custo do transporte, o humor dos mercados e, no caso brasileiro, a pressão direta sobre Petrobras, diesel, inflação e a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para terça-feira (17) e quarta-feira (18).

Trump endureceu de novo ao dizer que os termos para um cessar-fogo “ainda não são bons o suficiente”, sinalizando continuidade da ofensiva americana e israelense. Do outro lado, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, negou que Teerã tenha pedido cessar-fogo e afirmou que o país está pronto para se defender “pelo tempo que for necessário”.

A peça-chave dessa crise continua sendo o Estreito de Ormuz.

Cerca de um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo passa por ali, e a interrupção do tráfego elevou o risco de desabastecimento e de choque prolongado de preços. A Agência Internacional de Energia (AIE) decidiu liberar mais de 400 milhões de barris de estoques emergenciais, com entregas imediatas na Ásia e na Oceania e início do fluxo a partir do fim de março nas Américas e na Europa.

É uma intervenção de emergência, mas não uma solução.

O próprio mercado já entendeu que a abertura desses estoques pode aliviar o curto prazo, porém não recompõe automaticamente uma rota estratégica travada pela guerra. Os futuros do petróleo já avançaram fortemente neste mês, e analistas seguem tratando a permanência do bloqueio de Ormuz como o principal fator de risco para novas altas.

No Brasil, o reflexo já bateu na porta.

O governo Lula reagiu na quinta-feira (12) zerando PIS/Cofins do diesel e criando novas cobranças sobre exportações de petróleo e diesel para tentar segurar a pressão doméstica sobre combustíveis e inflação. Mesmo assim, a Petrobras anunciou aumento de R$ 0,38 por litro no diesel vendido às distribuidoras a partir de sábado (14), movimento que a presidente da estatal, Magda Chambriard, classificou como de impacto residual ao consumidor por causa da compensação tributária.

O problema é que o choque externo não desapareceu.

O Brasil ainda importa parte relevante do diesel que consome, e a escalada do petróleo já vinha provocando aperto de oferta e alta de custos no agronegócio e na logística. Produtores rurais sentiram o salto do diesel em plena colheita, e a Petrobras chegou a vender 20 milhões de litros em leilão no Sul em meio a relatos de escassez e distorções entre o preço doméstico e a referência internacional.

Esse é o ponto político da história.

A guerra no Oriente Médio deixou de ser assunto distante para virar variável concreta do custo de vida no Brasil. Combustível mais caro pressiona frete, comida, transporte urbano e inflação corrente. O Ministério da Fazenda já elevou sua projeção de inflação para 2026, justamente por causa do choque do petróleo, e simulou cenários ainda piores caso o Brent permaneça em níveis mais altos.

Por isso o Copom entra na semana ainda mais encurralado, quando terá de escolher entre a proteção da economia real e os interesses dos oligarcas do sistema financeiro.

Os ricaços da Faria Lima já vinham resistindo a qualquer perspectiva de corte de juros, e agora juram que a nova disparada da energia confirma esse cálculo. Agências internacionais de notícia destacam que o choque no petróleo está forçando bancos centrais a reavaliar seus passos e que, em emergentes como o Brasil, a expectativa de alívio monetário pode ser reduzida pela pressão inflacionária das commodities. O deus mercado, portanto, tenta mais uma vez impor seu dogma.

Mas o risco inflacionário no Brasil não nasce de um suposto excesso de consumo popular, porque o mercado interno já vem perdendo tração há anos sob o peso do crédito caro, da renda comprimida e do endividamento das famílias. O foco real da pressão está no custo do dinheiro imposto por uma das maiores taxas de juros do mundo, que encarece produção, frete, capital de giro e investimento, espalhando aumentos por toda a cadeia econômica. Em vez de conter uma demanda superaquecida, o juro alto corrói a atividade, trava o consumo e ainda ajuda a realimentar a própria inflação que diz combater.

Há ainda um efeito psicológico que não pode ser subestimado.

Quando Trump diz que não quer encerrar a guerra agora, os especuladores escutam uma mensagem simples: o risco geopolítico continua aberto. Quando a AIE solta estoques emergenciais em volume recorde, o mercado entende outra mensagem: a crise é séria o bastante para exigir munição extraordinária. E, quando o petróleo sobe, as bolsas recuam e o consumidor sente primeiro no posto e depois no supermercado.

A crise também expõe um limite estrutural do Brasil.

Mesmo sendo grande produtor de petróleo, o país ainda não está blindado contra um choque internacional no diesel. Isso ajuda a explicar por que o Planalto foi obrigado a agir com renúncia tributária e por que a Petrobras ficou no meio do fogo cruzado, tentando segurar parte do impacto sem ignorar completamente a realidade externa.

Na prática, Trump alonga a guerra, o Irã segura a pressão em Ormuz, a AIE tenta evitar um colapso maior e o Brasil entra na semana do Copom com o fantasma dos juros altos novamente reaceso.

É esse encadeamento que transforma a guerra no Oriente Médio na principal notícia deste domingo, não apenas pelo tamanho do conflito, mas porque ela já invadiu o bolso, os juros e a política econômica brasileira. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

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