O governador Ratinho Junior (PSD) entrou na corrida presidencial com aprovação alta, 84,3%, mas a pesquisa liberada nesta quinta-feira (12) pelo TRE-PR expôs um problema que já virou aflição no núcleo do Palácio Iguaçu: o secretário das Cidades, Guto Silva (PSD), nome preferido do governador para a sucessão, não decolou. No cenário principal para o governo, Guto aparece com apenas 4,3%, muito atrás de Sergio Moro (União), com 44%, de Requião Filho (PDT), com 23,1%, e também atrás de Alexandre Curi (PSD), com 11,3%.
Nos bastidores, a leitura no grupo governista foi pesada. Segundo fontes próximas a Ratinho ouvidas pelo Blog do Esmael, a Paraná Pesquisas pode ter implodido de vez a pré-candidatura de Guto. O motivo é simples: a sondagem libertada pela Justiça não mostrou apenas dificuldade de crescimento. Mostrou teto baixo, ausência de tração e incapacidade de herdar, até aqui, o capital político de um governador bem avaliado.
A situação piora quando se olha os outros cenários testados. No cenário em que Rafael Greca (PSD) entra na disputa, Guto marca 4,5%, enquanto Greca vai a 19,1%. No cenário em que Alexandre Curi fica fora e a disputa se afunila, Guto sobe só para 5,5%, ainda muito distante de Moro, que alcança 47%, e de Requião Filho, com 26%.
Em outras palavras, o continuísmo não apareceu como força. Apareceu como problema.
O dado é ainda mais incômodo para o Palácio porque Ratinho segue forte como cabo eleitoral potencial. A aprovação do governo permanece em 84,3%, e a soma de ótimo e bom chega a 70,9%. Mesmo assim, esse ativo não está sendo transferido automaticamente para o seu escolhido.
Em um grupo de WhatsApp que reúne aliados do governador, segundo relatos repassados ao Blog do Esmael, a frustração com Guto já não é disfarçada. A avaliação corrente é que a candidatura “subiu no telhado”, porque o secretário não se firmou nem como polo de unidade do PSD nem como nome competitivo fora da máquina. Eles reivindicam a substituição do pré-candidato, sob pena de humilhação nas urnas.
O problema político se mistura agora com um passivo administrativo explosivo. Prefeitos estariam cobrando as chamadas “prioridades abertas” no orçamento, anunciadas em vídeos por Guto Silva, mas sem lastro financeiro suficiente para sair do papel. Segundo informações obtidas pelo Blog do Esmael, o teto dessas promessas teria estourado em cerca de R$ 6 bilhões. Na prática, prefeitos teriam cantado obras em seus municípios, contratado projetos e assumido custo político local sem garantia de execução.
Esse ponto é especialmente sensível porque mexe com a sobrevivência dos próprios aliados de Ratinho nas cidades. Quando o município divulga uma obra e ela não acontece, o desgaste recai primeiro sobre o prefeito. E esse desgaste pode cobrar seu preço em 2028, na reeleição dos gestores ou na manutenção dos grupos que hoje orbitam o Palácio Iguaçu.
O Blog do Esmael teve acesso a dois casos concretos que a oposição já exibe como vitrine do problema. Em Paranaguá, no litoral, a promessa vinculada ao roteiro do governo chegaria a R$ 340 milhões. Em Paranacity, no Noroeste, a prioridade anunciada teria sido fixada em R$ 58 milhões, mas apenas R$ 1 milhão apareceu de fato no orçamento estadual, segundo a documentação reunida. Para a oposição, o buraco não está só no valor, mas no método: grava-se o vídeo, cria-se a expectativa local e sobra para o prefeito explicar ao morador por que a obra foi vendida como certa, mas não tem rubrica nem cronograma para sair do papel.
Outro foco de desgaste, segundo relatos de lideranças municipais ouvidas pelo Blog do Esmael, recai sobre a atuação de Guto Silva à frente da Secretaria das Cidades. Prefeitos da região de Rio Bonito do Iguaçu, severamente atingida pelo tornado de novembro passado, estariam indignados com o que classificam como abandono após a onda inicial de exposição oficial. Nos bastidores, a crítica é que o secretário apareceu em reportagens com colete laranja, encarnando o papel de gestor presente na emergência, mas a resposta concreta do governo não teria correspondido à encenação publicitária vendida naquele momento. Para esses aliados locais, o problema já não é apenas administrativo: virou ressentimento político numa área que esperava socorro continuado e passou a se sentir usada como cenário de marketing.
A viagem de Ratinho para a Suíça, revelada em primeira mão pelo Blog do Esmael, apenas empurrou a crise alguns dias para frente. O governador comunicou ao PL que seguirá no projeto presidencial, liberando o bolsonarismo para montar palanque próprio no Paraná. Esse gesto cindiu a direita estadual, fortaleceu a hipótese de Sergio Moro migrar para a órbita do PL e bagunçou de vez o ecossistema sucessório no estado.
Enquanto isso, Alexandre Curi não dá sinal de recuo. Melhor posicionado que Guto na pesquisa liberada, o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) já avisou, segundo a apuração política que circula no Centro Cívico, que não trabalha com plano B e não abre mão de disputar o Palácio Iguaçu. Os números reforçam essa disposição: Curi aparece com 11,3% no cenário principal para governador e com 33,7% na disputa ao Senado, atrás apenas de Alvaro Dias (MDB), que tem 49,6%.
Rafael Greca, por sua vez, também segue buscando lugar ao sol. Na pesquisa, quando entra no cenário de governo, marca 19,1%, muito acima de Guto. Isso ajuda a explicar por que, em caso de dissidência no PSD, uma chapa Alexandre Curi-Rafael Greca deixou de ser fantasia e passou a ser desenho plausível nos bastidores de uma “terceira via” da centro-direita.
Se esse racha prosperar, o campo governista pode sair das mãos de Ratinho antes mesmo das convenções. Num desenho possível, Curi disputaria o governo, Greca iria de vice, Alvaro Dias entraria forte para o Senado e a segunda vaga ficaria aberta para negociação. Não é um arranjo fechado. Mas já não é mais mero ruído.
A pesquisa liberada pelo TRE-PR também deixa outro recado duro ao Palácio. Na espontânea, Guto aparece com apenas 0,9%, atrás de Moro, Ratinho, Requião Filho, Alexandre Curi e Rafael Greca. É um retrato cru de baixa densidade política própria.
No fim das contas, Ratinho descobriu que aprovação alta não resolve tudo. Ele pode até ser forte para si, mas não está conseguindo fabricar, por decreto, o sucessor que deseja. E quando o candidato do governador patina, o partido racha, os prefeitos cobram obras sem dinheiro, socorro que não chegou e os aliados começam a procurar saída, a crise deixa de ser hipótese e vira contagem regressiva.
Guto Silva entrou na pesquisa como preferido do governador. Saiu dela como problema do sistema. Agora resta saber se Ratinho vai bancar esse estado de coisas até o limite ou se será obrigado a redesenhar o jogo antes que a debandada chegue de vez ao coração do PSD. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
Leia também no Blog do Esmael: DataTraiano testa Graeml ao Senado e acende novo racha na base de Ratinho; Agregador mostra DataRatinho turbinando Sandro Alex e Sergio Moro caindo no Paraná; Agregador de pesquisas mostra disputa entre Moro, Requião, Greca e Sandro no Paraná

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




