Caberá ao ex-presidente Michel Temer (MDB), aquele que conspirou e deu o golpe contra Dilma Rousseff (PT) em 2016, o papel de fiador da chamada “pacificação nacional”.
Ele foi acionado por deputados bolsonaristas para acalmar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente Alexandre de Moraes, alvo da fúria da extrema direita desde o 8 de janeiro.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), justificou a escolha de Paulinho da Força (Solidariedade-SP) como relator do PL da Anistia pelo suposto “trânsito” junto ao STF.
Mas, conforme apuração do Blog do Esmael, essa ponte inexiste.
Aliás, como mostrou o Blog do Esmael, Paulinho andou dinamitando uma das pontes que tinha com o Planalto.
O que se verificou, de fato, foi a consulta de Paulinho a Michel Temer, que atua nos subterrâneos de Brasília.
Segundo a Folha de S.Paulo, uma reunião realizada na casa de Temer, em São Paulo, reuniu Paulinho, Aécio Neves (PSDB-MG) e, remotamente, Hugo Motta.
Esse encontro foi confirmado pelas fontes do Blog do Esmael no Distrito Federal.
A cúpula mudou a estratégia: em vez de anistia, o projeto passa a ser chamado de “PL da Dosimetria das Penas”.
Na prática, significa aliviar as condenações de bolsonaristas presos pelo golpe de 8 de janeiro, inclusive do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Paulinho admitiu que consultou ministros do STF e que eles apoiaram a mudança de foco.
O argumento é que a anistia foi declarada inconstitucional, mas a dosimetria das penas seria “mais viável”.
O movimento tem como pano de fundo encerrar logo o imbróglio e abrir espaço para votações econômicas, como o Imposto de Renda, medidas de emprego e segurança.
A retórica da “pacificação” lembra o papel que Temer exerceu em 2016, quando arquitetou a derrubada de Dilma Rousseff.
Desde então, ele circula como conselheiro de plantão das elites, chamado sempre que o sistema político entra em crise.
Em maio do ano passado, Temer já havia sido convocado para outra “missão impossível”: salvar o mandato do senador Sergio Moro (União-PR) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
À época, foi montada uma operação de guerra que envolveu Jair Bolsonaro, ministros do STF e até o Palácio do Planalto para blindar o ex-juiz da Lava Jato da cassação.
Nunca é demais recordar que Temer foi cogitado diversas vezes como vice numa chapa com Bolsonaro, caso o ex-presidente conseguisse o milagre da reabilitação eleitoral.
E mais: foi o próprio Temer quem indicou Alexandre de Moraes para o STF, em 2017, reforçando a ironia da situação, já que hoje o ministro é o principal algoz da extrema direita bolsonarista.
Mas confiar a “pacificação democrática” a Temer é o mesmo que colocar Drácula para tomar conta do banco de sangue.
Os arquivos do Blog do Esmael registram episódios em que Temer se apresentou como “articulador da estabilidade”, sempre em nome dos interesses do mercado financeiro e contra os direitos sociais.
O PL da Anistia travestido de Dosimetria pode, assim, ser a nova versão da velha política: um arranjo feito nos bastidores para salvar líderes golpistas da cadeia, sem enfrentar a raiz autoritária que alimenta o bolsonarismo.
Temer é peça-chave da engrenagem que busca “pacificar” impondo o esquecimento e reduzindo punições.
A democracia, porém, não se fortalece com acordos de cúpula nem com Dráculas à solta, mas com justiça e memória.
Leia mais análises sobre PL da Anistia, Michel Temer, STF e 8 de janeiro no Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




