Prisão de Vorcaro põe Faria Lima em sobressalto

O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, empurrou o caso Banco Master para sua fase mais aguda. A reação de parte da Faria Lima, que passou a tratar a prisão de Daniel Vorcaro como desproporcional mesmo sem aliviar a gravidade do escândalo, mostra que o sistema financeiro começou a ler o ex-dono do banco menos como exceção e mais como precedente.

O incômodo da elite do dinheiro diz muito sobre o momento. Quando banqueiros e empresários reclamam do tratamento dado a Vorcaro, o recado não é jurídico apenas. É político. O andar de cima percebeu que a investigação saiu do terreno confortável das multas, dos acordos e dos empurrões regulatórios e entrou numa zona em que prisão, delação e recuperação de ativos podem atingir a engrenagem inteira.

Brasília, ao mesmo tempo, aumentou a pressão. Seis senadores protocolaram mandado de segurança no STF para cobrar a instalação da CPI do Banco Master, sob o argumento de que o requerimento está parado desde novembro de 2025 e que a demora ameaça a preservação de provas. Assinam a ofensiva Alessandro Vieira (MDB-SE), Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), Damares Alves (Republicanos-DF), Eduardo Girão (Novo-CE), Esperidião Amin (PP-SC) e Plínio Valério (PSDB-AM).

O movimento parlamentar ganhou munição técnica nesta quinta-feira (26). Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) enviado à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado mostra que o Banco Central fez quatro pedidos de esclarecimento ao BRB e ao Master antes de barrar a compra. Em todas as rodadas apareceram falhas, omissões ou ativos bilionários sem identificação clara. O processo começou no BC em 28 de março de 2025 e acabou travado em 3 de setembro, depois de meses de inconsistências.

Esse detalhe muda o bastidor. O Banco Central não tropeçou numa surpresa de última hora. Foi recebendo respostas incompletas, apontando falhas e vendo a operação crescer de 2,6 mil para 5,2 mil páginas até concluir que o negócio não parava em pé. A pergunta que sobe agora para a superfície é outra: quem insistia para que a operação avançasse, apesar dos alertas formais, e que tipo de proteção política cercava a tentativa de empurrar a carcaça do Master para o banco público do Distrito Federal? Essa leitura é uma inferência a partir da cronologia descrita no relatório.

O caso também já não cabe só no nome de Vorcaro. João Carlos Mansur, fundador da Reag, negocia delação desde novembro, e os bastidores das investigações trabalham com a hipótese de uma colaboração que dialogue com a do ex-banqueiro. O elo não é lateral. Segundo relato publicado pela Folha, as apurações cruzam fundos, lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e operações suspeitas que, em documento do BC enviado ao TCU, somariam R$ 11,5 bilhões entre o Master e fundos administrados pela Reag Trust.

Na mesma semana, a Operação Fallax colocou o Grupo Fictor no radar da Polícia Federal numa investigação sobre fraudes bancárias e lavagem de dinheiro que podem ultrapassar R$ 500 milhões. O ponto mais grave é o desenho descrito pela PF: empresas de fachada, movimentação simulada, cooptação de funcionários de bancos e uso da mesma estrutura por operadores financeiros e células do Comando Vermelho. Quando esse material aparece ao lado do caso Master, fica mais difícil sustentar a tese de um desvio isolado. O que surge é um ambiente permissivo, com regulação frouxa, infiltração criminosa e gente graúda circulando entre finança predatória e crime organizado.

É por isso que o sistema reage com tanto nervosismo. Se Vorcaro falar, não entrega apenas personagens. Pode entregar método, proteção, cumplicidade e atalho institucional. E há um problema adicional para a defesa dele: a conta. Segundo bastidores relatados por Mônica Bergamo, a delação esbarra no valor que teria de ser devolvido. Só na venda de carteiras ao BRB, o rombo citado chega a R$ 12,2 bilhões, enquanto estimativas de integrantes do governo falam em devolução total de até R$ 60 bilhões.

A fase mais aguda do caso Master começa exatamente aqui. Não quando um banqueiro é preso, mas quando a oligarquia financeira passa a se enxergar nele e entra em modo de autoproteção. O escândalo deixa de ser o problema de um homem e vira problema de sistema.

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