Início / donald Trump

Trump leva guerra ao coração da energia global

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, empurrou nesta segunda-feira (23) a guerra contra o Irã para o nervo da energia global ao impor um ultimato para a reabertura total do Estreito de Ormuz, enquanto Teerã respondeu com ameaça de atingir infraestrutura de energia e água em países do Golfo alinhados a Washington. A rota concentra cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no planeta, por isso qualquer abalo ali sai do mapa militar e entra direto na economia mundial.

A novidade mais pesada desta manhã veio da Agência Internacional de Energia (AIE). O diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, afirmou em Canberra que a crise aberta por essa guerra já é pior, somada, do que os choques do petróleo de 1973 e 1979 e a escassez de gás disparada pela invasão da Ucrânia em 2022. Segundo ele, a perda diária de oferta chegou a 11 milhões de barris de petróleo e a 140 bilhões de metros cúbicos de gás, um estrago que recoloca a segurança energética no centro da política global.

Birol foi além. Disse que a economia mundial enfrenta uma “grande, grande ameaça” e que muitos tomadores de decisão ainda não compreenderam a profundidade do problema. A AIE já coordenou a liberação de 400 milhões de barris de reservas emergenciais e discute novas liberações se a interrupção persistir, numa tentativa de ganhar tempo enquanto a diplomacia não destrava Ormuz.

O mercado captou o recado em segundos. O Brent voltou a operar acima de US$ 113 por barril, o WTI superou US$ 100 e as bolsas asiáticas abriram a semana em queda forte, com perdas expressivas em Seul, Tóquio, China e Hong Kong. Não se trata apenas de nervosismo de pregão. É o dinheiro precificando o risco de uma guerra longa sobre a principal artéria energética do planeta.

É aí que a guerra encosta no bolso. Quando Ormuz trava, o barril sobe. Quando o barril sobe, o diesel pressiona o transporte de cargas. E quando a logística aperta, frete e inflação começam a se espalhar pela cadeia. No Brasil, um choque prolongado nesse corredor tende a bater primeiro nos combustíveis e no custo do transporte, antes de respingar em comida, serviços e expectativas do mercado. Essa última conexão é uma inferência econômica baseada no salto do petróleo e na desorganização do fluxo global de energia já descritos por AIE, Reuters e New York Times.

Trump tenta apresentar o ultimato como demonstração de força, mas o efeito imediato foi o oposto. O prêmio de risco subiu, o humor global piorou e a percepção de escalada aumentou. O Irã já avisou que, se suas usinas forem atacadas, poderá retaliar contra instalações de energia, água e dessalinização na região, ampliando o raio do conflito para além dos alvos militares tradicionais.

Mais do que uma disputa regional, o mundo assiste agora a uma guerra que atingiu a engrenagem da globalização. Não se fala só em mísseis e bombardeios. Fala-se em navios represados, seguros marítimos mais caros, estoques estratégicos sendo acionados e governos correndo para amortecer um choque que já começa a contaminar inflação e crescimento.

Se o prazo de Trump expirar sem recuo iraniano, a guerra poderá migrar de vez da geopolítica para a macroeconomia do cotidiano. A conta não ficaria no Golfo. Ela viajaria no preço do petróleo, chegaria ao diesel, pressionaria o frete e acabaria no carrinho de compras. O conflito já não pode ser lido apenas como frente militar no Oriente Médio. Ele encostou no coração energético do planeta.

Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Leia também no Blog do Esmael: Trump anuncia cessar-fogo com Irã, mas acordo deixa bomba nuclear e sanções para depois; Trump anuncia acordo com Irã, mas Teerã freia assinatura e disputa termos de Ormuz; Lula banca R$ 1,12 no diesel com cobrança na bomba