Presidente condena interferência americana na Justiça brasileira, defende Moraes e promete medidas para proteger economia nacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgou nota oficial na noite desta quarta-feira, 30 de julho, rechaçando duramente as sanções impostas pelos Estados Unidos ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na avaliação do chefe do Executivo, a punição representa uma “inaceitável interferência do governo norte-americano na Justiça brasileira” e configura uma afronta à soberania nacional.
A nota presidencial foi publicada após o Departamento do Tesouro dos EUA incluir Moraes na lista de sanções da chamada Lei Magnitsky, congelando eventuais bens nos EUA e impondo restrições financeiras. A medida, segundo fontes do governo brasileiro, teria sido impulsionada por parlamentares bolsonaristas em articulação direta com o governo Donald Trump.
Sem citar nomes, Lula apontou que “políticos brasileiros que traem nossa pátria e nosso povo” estariam por trás da ofensiva contra o ministro do STF, considerado um dos principais símbolos da resistência institucional contra tentativas golpistas de 8 de janeiro de 2023.
“Justiça não se negocia”, cravou o presidente, num dos trechos mais incisivos da nota.
Soberania e economia na mira
Além da solidariedade explícita a Moraes, Lula também condenou o uso de “argumentos políticos” para justificar as novas barreiras comerciais impostas por Trump contra o Brasil. A Casa Branca anunciou, nesta quarta-feira, sobretaxa de 50% sobre uma série de produtos brasileiros, principalmente no setor agroexportador.
Lula lembrou que o Brasil já acumula déficit comercial com os EUA e classificou as sanções econômicas como “injustificáveis” e “politicamente motivadas”.
“A motivação política das medidas contra o Brasil atenta contra a soberania nacional e a própria relação histórica entre os dois países”, afirmou o presidente.
Medidas de contenção e reação diplomática
O governo federal informou que já iniciou uma avaliação dos impactos diretos das medidas norte-americanas e prepara um pacote emergencial para amparar trabalhadores, empresas e famílias brasileiras afetadas. A sinalização é de que o Brasil não aceitará passivamente a ofensiva de Trump e adotará contramedidas dentro dos marcos legais internacionais.
“Seguiremos dispostos a negociar, mas não abriremos mão dos instrumentos de defesa do país previstos em nossa legislação”, pontuou Lula.
Defesa da democracia e regulação digital
A nota também reforçou o compromisso do Brasil com os direitos humanos, a convivência pacífica entre as nações e a independência dos Poderes. Lula ainda aproveitou o texto para reiterar a importância da regulação das plataformas digitais, responsabilizando-as por conteúdos que promovem ódio, golpes e desinformação.
“No Brasil, a lei é para todos. A sociedade brasileira rejeita conteúdos de ódio, racismo, pornografia infantil, golpes, fraudes, discursos contra os direitos humanos e a democracia”, diz o texto.
A manifestação presidencial vem em meio a uma escalada retórica entre Brasília e Washington, intensificada desde a reeleição de Trump. Com a base bolsonarista operando nos bastidores internacionais para minar instituições brasileiras, Lula decidiu elevar o tom e traçar um limite: o Brasil não aceitará ataques externos orquestrados por interesses internos.
Guerra híbrida
A nota de Lula é, mais que um comunicado, um marco político. Em tom direto e sem concessões, o presidente expôs os nervos do conflito diplomático em curso: uma guerra híbrida entre o Brasil constitucional e uma aliança ideológica que articula sanções nos bastidores. É o Brasil democrático que está em jogo. E, como pontuou Lula, a Justiça não se negocia.
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Aqui está a íntegra da nota à impresa de Lula:
NOTA À IMPRENSA
O Brasil é um país soberano e democrático
Publicado em 30/07/2025 20h34
OBrasil é um país soberano e democrático, que respeita os direitos humanos e a independência entre os Poderes. Um país que defende o multilateralismo e a convivência harmoniosa entre as Nações, o que tem garantido a força da nossa economia e a autonomia da nossa política externa.
É inaceitável a interferência do governo norte-americano na Justiça brasileira.
O governo brasileiro se solidariza com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, alvo de sanções motivadas pela ação de políticos brasileiros que traem nossa pátria e nosso povo em defesa dos próprios interesses.
Um dos fundamentos da democracia e do respeito aos direitos humanos no Brasil é a independência do Poder Judiciário e qualquer tentativa de enfraquecê-lo constitui ameaça ao próprio regime democrático. Justiça não se negocia.
No Brasil, a lei é para todos os cidadãos e todas as empresas. Qualquer atividade que afete a vida da população e da democracia brasileira está sujeita a normas. Não é diferente para as plataformas digitais.
A sociedade brasileira rejeita conteúdos de ódio, racismo, pornografia infantil, golpes, fraudes, discursos contra os direitos humanos e a democracia.
O governo brasileiro considera injustificável o uso de argumentos políticos para validar as medidas comerciais anunciadas pelo governo norte-americano contra as exportações brasileiras. O Brasil tem acumulado nas últimas décadas um significativo déficit comercial em bens e serviços com os Estados Unidos. A motivação política das medidas contra o Brasil atenta contra a soberania nacional e a própria relação histórica entre os dois países.
O Brasil segue disposto a negociar aspectos comerciais da relação com os Estados Unidos, mas não abrirá mão dos instrumentos de defesa do país previstos em sua legislação. Nossa economia está cada vez mais integrada aos principais mercados e parceiros internacionais.
Já iniciamos a avaliação dos impactos das medidas e a elaboração das ações para apoiar e proteger os trabalhadores, as empresas e as famílias brasileiras.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Presidente da República

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




