O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu trocar o último debate presidencial da TV Globo por uma entrevista ao Flow Podcast nesta quinta-feira, 1º de outubro, criando uma disputa paralela pela atenção do eleitor a três dias do primeiro turno. Lula entra no ar às 20h45; a Globo começa seu debate às 21h30, depois do Jornal Nacional. [Abaixo, assistir Lula ao vivo no Flow].
A escolha coloca frente a frente dois modelos de comunicação. De um lado, a maior vitrine da televisão aberta brasileira, com o tradicional debate da Globo. Do outro, um podcast transmitido pela internet, ambiente em que uma conversa longa pode continuar circulando durante horas ou dias por meio de cortes, compartilhamentos e redes sociais.
A pergunta que atravessa a noite eleitoral é inevitável: quem conseguirá capturar mais atenção, Lula sozinho no Flow ou quatro candidatos debatendo na Globo?
Não é possível antecipar a resposta. Também será preciso cuidado na comparação posterior. A audiência da televisão é medida por institutos especializados, enquanto plataformas digitais contabilizam espectadores simultâneos, visualizações e consumo posterior do conteúdo. São métricas diferentes.
O precedente, entretanto, ajuda a explicar a aposta de Lula. Em outubro de 2022, durante a campanha presidencial daquele ano, uma entrevista do petista ao Flow ultrapassou 1 milhão de espectadores simultâneos no YouTube, segundo números divulgados pelo próprio programa na ocasião.
A capacidade de multiplicação dos cortes também pesa. Em análise publicada nesta quinta-feira, 1º de outubro, o colunista Alexandre Borges, do UOL, destacou justamente o alcance posterior das entrevistas de grandes podcasts nas redes sociais. Trata-se de avaliação do colunista, não de garantia de vantagem eleitoral para Lula.
Na Globo estarão Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). A mediação será de César Tralli, diretamente dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. O debate também será transmitido pela GloboNews, pelo g1 e pelo Globoplay.
Flávio Bolsonaro (PL) surpreendeu no início desta noite ao comunicar que não iria ao debate. Ele alegou interferência judicial na disputa ao Planalto.
“Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas. Em breve mais detalhes”, escreveu o X, referindo-se à decisão da minitra Estela Aranha de proibir a emissora carioca de exibir o púlpito destinado a Lula vazio.
Como insegurança jurídica pouca é bobagem, também no início desta noite, o ministro do STF Gilmar Mendes determinou que Renan Santos participasse do debate na Globo. Eis o malabarismo para disputar a atenção com o Flow.
A ausência do presidente altera a dinâmica política do confronto. Sem Lula no estúdio, quatro candidatos situados à direita ou ao centro-direita disputarão entre si espaço, diferenciação e votos na reta final.
É aí que aparece o risco do chamado canibalismo eleitoral.
Flávio Bolsonaro chega ao debate disputando parte do mesmo eleitorado procurado por Caiado e Zema. Cury também tenta ocupar espaço fora da polarização. Com Lula fora do palco, ataques entre esses candidatos podem transformar o último debate da Globo numa batalha dentro de campos eleitorais parcialmente sobrepostos.
Isso não significa que o confronto necessariamente seguirá esse roteiro. Os candidatos poderão usar o tempo para atacar Lula mesmo ausente, apresentar propostas ou buscar eleitores ainda indecisos. A Reuters registrou que a ausência do presidente deixa Flávio Bolsonaro como seu principal adversário presente no estúdio e amplia a importância do debate para a disputa pelos votos da reta final.
Há ainda uma curiosidade jurídica na montagem do cenário televisivo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou nesta quinta-feira que a Globo não exiba o púlpito que seria destinado a Lula. A decisão considerou que a exposição da posição vazia poderia funcionar como mecanismo de constrangimento ao candidato que decidiu não comparecer.
Assim, nem sequer haverá a tradicional imagem da cadeira ou do púlpito vazio para materializar a ausência do presidente.
O contraste ficará nas telas.
Às 20h45, Lula estará diante de Igor Coelho, o Igor 3K, no Flow. Quarenta e cinco minutos depois, começa na Globo o confronto entre Flávio Bolsonaro, Caiado, Cury e Zema. Durante parte da noite, portanto, o eleitor poderá literalmente escolher entre duas transmissões políticas concorrentes.
A disputa de audiência também carrega uma mudança estrutural na comunicação eleitoral brasileira. A televisão continua oferecendo alcance nacional imediato, mas podcasts, YouTube e redes sociais permitem ao candidato falar durante mais tempo, controlar melhor sua exposição e produzir conteúdo que permanece disponível depois da transmissão.
A comparação com a lógica da CazéTV ajuda a compreender o fenômeno, embora os produtos sejam diferentes: plataformas digitais passaram de complemento da televisão a concorrentes pela atenção em grandes acontecimentos. No caso desta quinta-feira, essa disputa chega diretamente à eleição presidencial.
Chamar antecipadamente o debate da Globo de “flop”, portanto, seria transformar provocação em informação. A resposta só poderá ser dada depois dos números de audiência da televisão e dos dados públicos do Flow.
Politicamente, porém, o debate chega esvaziado de um dos dois candidatos que concentram as maiores intenções de voto nas pesquisas mais recentes.
A Quaest divulgada em 28 de setembro colocou Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 34% no primeiro turno. Foram entrevistados presencialmente 2.004 eleitores entre 24 e 27 de setembro; a margem de erro é de dois pontos percentuais, com 95% de confiança. O levantamento foi registrado no TSE sob o número BR-06520/2026.
A BTG/Nexus, também divulgada em 28 de setembro, registrou Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 37%. Foram ouvidos por telefone 2.000 eleitores entre 25 e 27 de setembro, com margem de erro de dois pontos e nível de confiança de 95%. O registro no TSE é BR-07557/2026.
Os dois levantamentos colocam Lula e Flávio Bolsonaro nas duas primeiras posições, mas pesquisa não determina resultado eleitoral nem autoriza cravar antecipadamente quem estará no segundo turno. A votação de domingo, 4 de outubro, é que decidirá se haverá segundo turno e quais candidatos avançarão.
É o velho “só falta combinar com os russos”, frase incorporada ao vocabulário político brasileiro para lembrar que estratégia eleitoral depende de quem vota.
Neste caso, os “russos” são mais de 150 milhões de eleitores aptos a escolher nas urnas.
Antes disso, haverá uma pequena prévia da disputa pela atenção nacional: Lula no Flow às 20h45; Flávio Bolsonaro, Caiado, Cury e Zema na Globo às 21h30.
A Vênus Platinada vai dominar a noite ou dividir audiência com o podcast? E, sem Lula no palco, os candidatos presentes concentrarão fogo no petista ou disputarão votos entre si?
Os números de audiência responderão à primeira pergunta. O debate responderá à segunda.
Lula ao vivo no Flow
Serviço
Lula no Flow Podcast: quinta-feira, 1º de outubro, às 20h45, com transmissão pela internet.
Debate presidencial da TV Globo: quinta-feira, 1º de outubro, às 21h30, com Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo), além de transmissão pela GloboNews, g1 e Globoplay.
Acompanhe no Blog do Esmael a repercussão das duas transmissões e os últimos movimentos da eleição presidencial antes da votação de 4 de outubro.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




