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Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro indicam que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu o ex-controlador do Banco Master em uma reunião reservada realizada em 14 de março de 2025, em São Paulo. O encontro, articulado por pessoas próximas ao magistrado, ocorreu no endereço do Instituto Iter, fundado por Mendonça, e durou aproximadamente duas horas. A revelação cria um novo problema institucional para o relator do caso Master justamente quando o ministro concentra decisões sobre a investigação.
A informação foi publicada nesta quarta-feira, 2 de setembro de 2026, pelo jornalista Paulo Motoryn, do ICL Notícias, a partir de mensagens e áudios extraídos do aparelho de Vorcaro. O material mostra uma aproximação construída ao longo de semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
A documentação não demonstra que Mendonça tenha interferido no Banco Central, prometido alguma providência, recebido vantagem ou tomado decisão judicial em favor de Vorcaro. Também não revela exatamente qual pedido o banqueiro teria levado ao ministro.
O que aparece de forma objetiva nas mensagens é a existência da articulação e, no caso de 14 de março, a convergência de registros que indica o encontro presencial entre os dois.
O episódio ganha peso porque Mendonça é atualmente o relator no STF dos procedimentos relacionados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. Em março, o ministro autorizou medidas contra o ex-banqueiro e, posteriormente, passou a conduzir decisões relevantes da investigação.
Advogado dizia estar “trabalhando” para Vorcaro
A aproximação começou em fevereiro de 2025. Em 8 de fevereiro, Ciro Rocha Soares enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado de André Mendonça.
Na sequência, encaminhou um áudio no qual afirmou: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.
O conteúdo não esclarece qual trabalho o advogado dizia estar realizando para Vorcaro, nem comprova a existência de contrato formal entre os dois. A frase, contudo, estabelece no próprio diálogo que Ciro apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor do banqueiro.
Dias depois, o advogado voltou ao assunto. Em mensagem enviada em 16 de fevereiro, escreveu a Vorcaro que o “A.M.” queria recebê-lo e que seria importante uma reunião entre os dois.
Em áudio, Ciro afirmou que havia conversado com Mendonça sobre a situação enfrentada por Vorcaro e que o ministro teria ficado “balançado” com o assunto.
O advogado também disse que Mendonça conhecia a situação envolvendo o Banco Central e que já havia recebido informações sobre o tema dele próprio e de Cezinha de Madureira.
É uma informação atribuída ao advogado nas mensagens. O material divulgado não traz uma manifestação de Mendonça confirmando a descrição feita por Ciro.
Cezinha entra na articulação
O deputado Cezinha de Madureira aparece como outra ponte entre Vorcaro e Mendonça.
Em 13 de março de 2025, Cezinha informou ao banqueiro que havia marcado uma reunião com o ministro para as 17h do dia seguinte, em São Paulo. Na mesma conversa, indicou o endereço da Alameda Santos, 647, 16º andar.
O endereço é a sede do Instituto Iter, instituição de formação e aperfeiçoamento profissional fundada por André Mendonça. O próprio instituto confirma em seu site que Mendonça é seu fundador e informa a Alameda Santos, 647, 16º andar como endereço da entidade.
No dia 14 de março, pouco antes das 17h, Vorcaro avisou Cezinha que estava a caminho. Em seguida, o deputado respondeu: “Ministro já está te esperando”.
As conversas do banqueiro com o motorista reforçam o deslocamento. Vorcaro enviou ao funcionário o mesmo endereço indicado por Cezinha e informou posteriormente que estava saindo do local.
O cruzamento dos horários indica uma permanência de aproximadamente duas horas.
A combinação de mensagens de Cezinha, registros do próprio Vorcaro e comunicações com o motorista é o elemento que sustenta a existência do encontro presencial.
Reunião ocorreu fora do STF
O encontro não ocorreu no edifício do Supremo Tribunal Federal nem em uma instalação do Banco Master.
Foi realizado na sede privada do Instituto Iter, empresa ligada ao ministro. O site oficial da instituição identifica Mendonça como fundador e apresenta o endereço da Alameda Santos, 647, 16º andar, em São Paulo.
A localização importa porque coloca o encontro fora de uma agenda institucional do STF, ao menos segundo o material divulgado pelo ICL Notícias.
Ainda não há, no conteúdo apresentado, ata, gravação ou transcrição da conversa. Tampouco há registro público apresentado na reportagem que permita saber quem participou de toda a reunião, qual pedido foi levado ao ministro ou se alguma providência foi tomada depois.
Essas lacunas impedem transformar a reunião em prova de irregularidade.
Mas também tornam legítimas perguntas sobre a agenda, o contexto e a finalidade do encontro.
O problema institucional de Mendonça
O caso não pode ser analisado isoladamente da posição que Mendonça ocupa na investigação do Banco Master.
O ministro assumiu a relatoria dos procedimentos relacionados ao caso e já tomou decisões relevantes contra Vorcaro. Em março, por exemplo, autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero, que resultou na prisão preventiva do banqueiro e em medidas patrimoniais.
O Blog do Esmael também registrou que Mendonça autorizou posteriormente a transferência de Vorcaro para Brasília e passou a conduzir decisões envolvendo a investigação e possíveis colaborações do ex-banqueiro.
Agora, as mensagens reveladas colocam o próprio relator no histórico de contatos pessoais com o principal investigado.
Isso não significa que as decisões de Mendonça sejam inválidas ou que o ministro tenha favorecido Vorcaro. Significa que o contexto da relação precisa ser esclarecido.
Há uma diferença fundamental entre contato institucional, audiência formal, encontro privado e eventual atuação de terceiros para aproximar um investigado do relator de seu próprio caso.
É justamente essa diferença que o novo material torna relevante.
O Instituto Iter amplia as perguntas
O Instituto Iter também já havia entrado no debate público antes da revelação do encontro.
O instituto é uma empresa ligada a Mendonça e foi autorizado pelo Ministério da Educação, no fim de 2025, a oferecer curso de pós-graduação. A autorização foi homologada após parecer favorável do Conselho Nacional de Educação.
Reportagens anteriores também levantaram questões sobre contratos públicos firmados pelo Iter e sua relação empresarial com Mendonça. Esses fatos, isoladamente, não estabelecem qualquer conexão financeira com Vorcaro.
O ponto novo é outro: o endereço do instituto aparece como local da reunião que, segundo as mensagens, colocou frente a frente o ministro e o banqueiro que viria a ser alvo de decisões de Mendonça no caso Master.
O Instituto Iter confirma oficialmente a ligação de Mendonça com a instituição e o endereço utilizado na reunião.
O que as mensagens mostram
O conjunto divulgado permite separar quatro níveis de informação.
Primeiro, há mensagens em que Ciro Rocha Soares afirma estar atuando em favor de Vorcaro enquanto mantinha contato pessoal com Mendonça.
Segundo, há áudios em que o advogado relata ter conversado com o ministro sobre um assunto relacionado à situação do banqueiro no Banco Central.
Terceiro, há mensagens de Cezinha de Madureira marcando a reunião de 14 de março, com data, horário e endereço.
Quarto, há registros de Vorcaro com o próprio motorista que coincidem com o horário e o endereço fornecidos por Cezinha.
O material não mostra, entretanto, uma eventual contrapartida de Mendonça.
Não há prova apresentada de pagamento, promessa, interferência administrativa ou decisão judicial decorrente do encontro.
Essa distinção é essencial.
A revelação jornalística é sobre acesso e relacionamento. A prova de eventual irregularidade dependeria de elementos adicionais.
O outro lado
Segundo o ICL Notícias, o ministro André Mendonça e o deputado Cezinha de Madureira foram procurados para comentar as informações. A assessoria de comunicação do STF confirmou o recebimento da demanda e informou que ela havia sido encaminhada ao gabinete do ministro.
Até a publicação da reportagem do ICL, não havia resposta de Mendonça.
O jornalista também tentou ouvir Ciro Rocha Soares, sem conseguir contato. O espaço foi mantido aberto para manifestações dos citados.
A ausência de resposta não confirma nenhuma das suspeitas levantadas pelo material.
O mesmo vale para a reunião: sua existência é sustentada pelas mensagens e registros apresentados, mas o conteúdo da conversa permanece desconhecido.
A pergunta que fica para o STF
O caso coloca uma questão institucional simples, mas incômoda: em que circunstâncias um ministro do Supremo recebeu reservadamente o principal investigado de um processo que posteriormente passou a relatar?
A resposta precisa estabelecer a natureza do encontro, quem participou, qual era a pauta e se o compromisso constava de alguma agenda institucional ou pessoal.
Mendonça tem uma posição particularmente sensível no caso Master porque suas decisões alcançam Vorcaro diretamente. O ministro já autorizou prisões, transferências, diligências e outras medidas relacionadas à investigação.
Por isso, a revelação não permite concluir que houve favorecimento. Mas também não é um detalhe irrelevante.
O Supremo Tribunal Federal vive uma crise de confiança pública que não será resolvida apenas pela legalidade formal dos atos. A transparência sobre relações, agendas e potenciais conflitos é parte da legitimidade de qualquer investigação que envolva bilhões de reais, instituições financeiras e autoridades de primeiro escalão.
No caso de André Mendonça, a pergunta que dá título a esta reportagem não é uma sentença de culpa. É uma cobrança jornalística por esclarecimento: até tu, André Mendonça?
A resposta precisa vir com documentos, agenda e explicações sobre o encontro.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura do caso Banco Master e das decisões do Supremo Tribunal Federal.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




