O presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já travam a eleição presidencial de 2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quatro meses antes do primeiro turno, com uma ofensiva jurídica que antecipa a disputa por vídeos, memes, cortes e propaganda negativa nas redes sociais.
Segundo levantamento preliminar desta segunda-feira (8), a equipe jurídica ligada a Flávio Bolsonaro havia acionado o TSE contra Lula e o PT em 44 representações até 2 de junho. O senador também aparece como alvo de 23 representações movidas pelo PT e por outros partidos.
O dado mostra que a pré-campanha saiu do terreno da fala solta e entrou na lógica do processo. Cada postagem, vídeo editado, peça impulsionada, jingle, meme ou discurso de palanque pode virar pedido de remoção de conteúdo, multa, direito de resposta ou acusação de propaganda antecipada.
Flávio Bolsonaro montou uma equipe jurídica com comando eleitoral antes de consolidar a campanha na rua. A ex-ministra do TSE Maria Cláudia Bucchianeri foi contratada para coordenar a área jurídica, enquanto o advogado Tracy Reinaldet atua na frente eleitoral penal, de acordo com a reportagem.
No PT, a informação publicada é outra: Lula já escolheu Marco Aurélio de Carvalho, do Grupo Prerrogativas, para assumir a coordenação jurídica da pré-campanha, mas a formalização ainda depende da engrenagem interna comandada por Edinho Silva. Enquanto isso, Angelo Longo Ferraro atua oficialmente nos casos do partido.
A disputa interessa ao eleitor comum porque a campanha de 2026 será recebida pelo celular antes de chegar ao rádio e à televisão. O usuário de rede social verá cortes de discursos, ataques, sátiras, páginas de apoio, impulsionamento e vídeos de poucos segundos muito antes da largada formal da propaganda eleitoral.
A propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. Até lá, pré-candidatos podem se apresentar, participar de entrevistas, discutir ideias e pedir apoio político, desde que não peçam voto de forma explícita nem usem atalhos com o mesmo sentido. A fronteira é curta, e os advogados já ocupam esse espaço.
O ponto sensível não é a crítica política dura, que faz parte da democracia. O problema começa quando a pré-campanha entra na zona de ataque pessoal, fato sabidamente falso, pedido de não voto ou impulsionamento negativo contra adversário. É nessa brecha que a Justiça Eleitoral tende a receber uma pilha de prints, links e vídeos.
A pergunta que o Paraná precisa fazer agora é simples: quem vai importar esse modelo para a eleição estadual? Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL), Gleisi Hoffmann (PT), Requião Filho (PDT), Ratinho Junior (PSD) e Alexandre Curi (PSD) já operam em ambiente digital de alta temperatura.
Moro e Deltan carregam a Lava Jato como identidade política e dependem de rede social para mobilizar sua base. Filipe Barros disputa o eleitorado bolsonarista com linguagem de confronto. Gleisi fala ao PT nacional e ao palanque paranaense. Requião Filho tenta converter oposição estadual em candidatura competitiva. Ratinho Junior usa a força do governo, da agenda administrativa e da comunicação institucional. Alexandre Curi entrou na pré-campanha para o Senado com capital digital próprio.
Nenhum desses nomes pode tratar a internet como território sem custo. No Paraná, a régua do TSE pode chegar pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), pelo Ministério Público Federal (MPF), por partidos adversários ou por eleitores que denunciem propaganda antecipada. O processo não precisa esperar comício; basta um link.
A pré-campanha paranaense já tem material combustível. Há discursos duros, ataques pessoais, vídeos de eventos, cortes de fala, páginas de apoio, pesquisas, pré-candidaturas ao governo, ao Senado e à Câmara. O passo seguinte será saber quem terá advogado antes de ter palanque, e quem vai esperar a primeira decisão para descobrir o preço da guerra digital.
Esse modelo muda também o trabalho das campanhas. Não basta produzir conteúdo rápido. Será preciso guardar prova de autoria, contratação, impulsionamento, origem de página, vínculo com agência, autorização de uso de imagem e responsabilidade por corte de vídeo. A eleição passa a depender de marqueteiro, editor de rede e advogado olhando a mesma postagem antes da publicação.
Para Lula, a judicialização pode funcionar como defesa contra ataques e desinformação. Para Flávio Bolsonaro, a ofensiva no TSE tenta enquadrar o PT antes que a máquina presidencial ocupe as redes com vantagem política. Para o eleitor, o risco é outro: ver a disputa pública virar uma guerra de remoção de conteúdo, com decisões rápidas sobre aquilo que pode ou não circular.
O Paraná não está fora dessa trincheira. A campanha de 2026 no estado deve passar por feed, grupo fechado, vídeo curto, anúncio segmentado e denúncia com captura de tela. Quem vencer a disputa pelo celular terá de explicar, também, quem paga, quem impulsiona, quem corta, quem distribui e quem responde quando a mentira vira arma eleitoral.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




