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Lula e Flávio largam campanha mirando eleitor que rejeita os dois

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A campanha presidencial começa oficialmente neste domingo (16), mas a disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) já entrou em uma fase diferente: os dois favoritos chegam à largada com níveis elevados de rejeição e precisam conquistar eleitores que não estão plenamente identificados com nenhum dos polos. A pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto mostra Lula com 38% e Flávio com 31% no primeiro turno e 43% a 40% no segundo, em empate técnico.

O dado mais importante para a largada, portanto, não é repetir quem está na frente. É observar quem ainda pode mudar o resultado.

A rejeição funciona como um teto para os dois principais candidatos. Segundo a Quaest, 52% dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto 54% rejeitam Flávio Bolsonaro. Os índices são altos para candidatos que podem voltar a se enfrentar no segundo turno.

Há ainda outro dado que ajuda a explicar o tamanho do terreno eleitoral em disputa. Quando perguntados sobre o cenário que mais temem, 45% dos entrevistados apontaram a volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 41% disseram temer a continuidade de Lula.

A pesquisa não mede diretamente quantos eleitores rejeitam simultaneamente Lula e Flávio. Mas os números mostram que existe um eleitorado relevante que não está representado de forma confortável por nenhum dos dois campos. É justamente aí que a campanha começa a procurar votos.

A eleição sai da pré-campanha e entra na disputa pelo convencimento

A partir de 16 de agosto, a propaganda eleitoral passa a ser permitida oficialmente, inclusive na internet, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A partir dessa data também estão autorizadas modalidades de campanha nas ruas e a propaganda paga ou impulsionada na internet, dentro das regras eleitorais.

O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, porém, começa apenas em 28 de agosto. Isso dá às campanhas quase duas semanas para disputar atenção principalmente por meio de redes sociais, eventos, entrevistas, imprensa e comunicação digital antes da estreia da propaganda gratuita.

É nesse intervalo que a estratégia de Lula e Flávio terá de responder a uma pergunta decisiva: como transformar rejeição em voto útil sem aumentar a rejeição do adversário a ponto de também consolidar o voto contrário?

A equação é particularmente delicada porque o segundo turno indicado pela Quaest está dentro da margem de erro. Lula tem 43%, contra 40% de Flávio. A diferença nominal de três pontos não permite tratar o cenário como vantagem consolidada.

Lula precisa ampliar sem perder a própria base

Lula entra na campanha formal como líder do primeiro turno, mas não pode tratar os 38% como uma reserva automática de votos para outubro.

O presidente terá de transformar a vantagem numérica em uma coalizão eleitoral mais ampla. Para isso, o discurso da campanha tende a precisar conversar com eleitores que aprovam determinadas políticas do governo, mas não necessariamente se identificam com o PT.

O plano de governo apresentado pela candidatura petista procura oferecer essa ponte por meio de uma agenda que combina crescimento econômico, atuação do Estado, políticas sociais e temas trabalhistas. Entre as propostas está o fim da escala 6×1 e a adoção de jornada semanal de 40 horas sem redução salarial, além do fortalecimento da negociação coletiva e da assistência sindical nas demissões.

A campanha de Lula também terá de administrar o peso da rejeição. Com 52% declarando que não votariam nele, qualquer tentativa de ampliar a base precisa evitar que novos segmentos sejam empurrados para o campo adversário.

O desafio é crescer sem transformar a eleição numa votação plebiscitária sobre o próprio Lula.

Flávio precisa crescer para além do eleitor bolsonarista

Flávio Bolsonaro enfrenta uma dificuldade semelhante, mas por outro caminho.

Com 31% no primeiro turno e 54% de rejeição, o candidato do PL precisa converter a força do eleitorado de direita em uma candidatura capaz de alcançar segmentos que não se consideram bolsonaristas.

O programa apresentado por sua campanha aposta em uma agenda distinta da petista. Na economia, prevê redução do tamanho do Estado, corte de ministérios, novo teto de gastos e privatizações. Na segurança, propõe endurecimento contra facções e narcotráfico. Na educação, defende ensino cívico-militar, método fônico e vouchers escolares.

A campanha também escolheu explorar temas capazes de atingir diretamente a avaliação do governo Lula. O plano de Flávio, por exemplo, utiliza as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) como argumento de oposição e apresenta medidas antifraude como parte de sua agenda.

O problema é que uma campanha construída apenas sobre a rejeição a Lula pode não ser suficiente para ultrapassar a barreira de 54% de rejeição ao próprio Flávio.

O centro da disputa pode estar fora dos dois polos

É aqui que a eleição ganha um componente diferente.

Lula e Flávio chegam ao primeiro dia oficial de campanha com bases eleitorais expressivas, mas também com rejeições superiores a 50%. Ao mesmo tempo, a Quaest mostra um país dividido entre dois medos: 45% temem a volta da família Bolsonaro e 41% temem a continuidade de Lula.

Isso cria uma disputa que não pode ser reduzida à aritmética do primeiro turno.

Para Lula, a questão será convencer parte do eleitorado que teme o retorno do bolsonarismo sem necessariamente votar no PT.

Para Flávio, será convencer parte do eleitorado que rejeita a continuidade de Lula sem necessariamente desejar a volta do grupo político liderado por sua família.

A campanha começa, portanto, com uma espécie de paradoxo eleitoral: os dois candidatos precisam falar para eleitores que podem votar neles, mas também precisam falar com aqueles que ainda procuram uma razão para não votar no outro.

O segundo turno começa antes do primeiro

A fotografia da Quaest ajuda a explicar esse movimento.

No primeiro turno, Lula tem 38% e Flávio, 31%. Há sete pontos de diferença. No segundo, a distância cai para três pontos: 43% a 40%. A margem de erro é de dois pontos percentuais, o que caracteriza empate técnico.

A pesquisa foi realizada presencialmente com 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto, com nível de confiança de 95% e registro no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-06773/2026.

A diferença entre os dois cenários revela a natureza da eleição. Parte do eleitorado que hoje está distribuída entre outros nomes pode ser decisiva numa eventual segunda rodada. E, nesse estágio, a rejeição pode pesar tanto quanto a intenção de voto.

Por isso, a campanha que começa em 16 de agosto terá duas batalhas simultâneas: preservar o eleitorado já conquistado e reduzir a resistência fora das próprias bolhas.

O vencedor da eleição poderá não ser aquele que simplesmente mobilizar mais apaixonados. Poderá ser aquele que conseguir convencer mais eleitores que começam a campanha dizendo, de alguma forma: “não quero nenhum dos dois”.

É esse eleitor que passa a valer ouro a partir deste domingo.

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