Projetos de Filipe Barros e Ciro Nogueira, pressão sobre o Banco Central e blindagens posteriores mostram que a direita esteve dentro da crise do Banco Master, e não fora dela.
O deputado federal Filipe Barros (PL-PR) entrou na mesma trilha aberta pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) para turbinar a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) justamente no terreno em que o Banco Master mais precisava de oxigênio: a confiança do investidor. Ciro apresentou, em agosto de 2024, uma emenda para elevar a cobertura ordinária do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. Filipe repetiu a proposta na Câmara, em novembro de 2024, com o PL 4.395/2024.
A coincidência não é periférica. É política.
Quando o caso Master explodiu de vez, o país descobriu que a digital da direita não estava só no discurso de ocasião, mas também em iniciativas concretas para mudar regras, pressionar instituições e criar ambiente de proteção ao banco.
O projeto de Filipe Barros dizia, em preto no branco, que o limite de cobertura do FGC passaria para R$ 1 milhão. A emenda de Ciro Nogueira, apresentada ao Senado, fazia a mesma coisa: ampliava a garantia ordinária dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Não se trata de interpretação livre. Está nos textos oficiais das proposições.
Aqui está o projeto de Filipe na Câmara. E aqui está o projeto de Ciro no Senado.
O ponto sensível é óbvio. O FGC existe para reduzir risco e evitar corridas bancárias, mas o teto ordinário atual é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por conglomerado financeiro. Mexer nisso, elevando o valor para R$ 1 milhão, aumentaria o colchão de proteção ao investidor num momento em que bancos médios dependiam justamente desse argumento para captar recursos.
Não por acaso, mensagens reveladas pela imprensa mostram Daniel Vorcaro comemorando a iniciativa de Ciro. Segundo o Poder360, o banqueiro escreveu que a proposta era “uma bomba atômica” porque “ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes”. A frase é importante porque desmonta a desculpa posterior de neutralidade técnica. Quem estava no centro do caso entendeu perfeitamente o alcance político e econômico da mudança.
Filipe Barros foi além da coincidência temática. Ele protocolou o PL 4.395/2024 em 14 de novembro de 2024, defendendo a ampliação da cobertura do FGC. Depois, já sob o peso do escândalo, pediu a retirada do projeto em fevereiro de 2026. A Câmara registra as duas etapas: a apresentação e, mais tarde, o requerimento de retirada.
Ou seja, a direita não apareceu no caso Master apenas quando a crise virou manchete. Ela já estava lá antes, tentando alterar a moldura regulatória.
Esse é o centro do argumento levantado pelo colunista Celso Rocha de Barros, em artigo publicado no fim de semana, na Folha, ao sustentar que há mais digitais da direita do que da esquerda no caso Master, inclusive nas tentativas de socorro político e institucional ao banco. A tese pode desagradar muita gente, mas o pedaço legislativo dessa história é documentado.
O roteiro não para aí.
Em setembro de 2025, parlamentares apresentaram na Câmara o REQ 3651/2025, pedindo urgência para o PLP 39/2021, proposta que amplia a fiscalização do Congresso sobre a diretoria do Banco Central e abre caminho para exonerar diretores da autoridade monetária. O requerimento existe, foi protocolado em 2 de setembro de 2025, e entrou no debate justamente quando o futuro do Master estava sob decisão.
Meses depois, em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A. e do Banco Master de Investimento S.A. A autarquia também publicou atos normativos e FAQ específicos sobre a liquidação, consolidando formalmente a quebra do banco.
Depois disso, parte da direita tentou mudar de posição na fotografia, mas os rastros permaneceram. Em fevereiro de 2026, a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, divulgou nota em defesa do ministro Dias Toffoli após ele deixar a relatoria do caso Master. A manifestação pública reforçou a percepção de que setores importantes da direita agiram não para esclarecer o escândalo, mas para conter danos.
É claro que o caso Master não cabe numa caricatura simples. Há personagens de vários campos orbitando a história, e seria intelectualmente desonesto empurrar toda a conta para um lado só. Mas também virou desonestidade fingir que a direita foi mera espectadora.
Não foi.
Houve proposta para ampliar o guarda-chuva do FGC.
Houve movimentação para pressionar o Banco Central.
Houve defesa política quando o escândalo já estava em combustão.
E houve, agora, a pressa de apagar vestígios.
Dito isso, o que o caso Master expõe é menos um acidente isolado e mais um método: quando o sistema financeiro de compadrio entra em pane, aparecem operadores dispostos a socializar o risco, blindar aliados e empurrar a conta para a institucionalidade. A direita disse sim ao Master quando isso interessava. Agora tenta convencer o país de que nunca esteve na sala. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




