Centrão tenta aprovar distrital misto e reduzir força de influencers

O adeus aos influenciadores na política surge no rastro da ofensiva do Centrão para aprovar o voto distrital misto, com o discurso de combater facções criminosas, mas com a real intenção de retomar o controle partidário e reduzir a força dos puxadores de voto que emergiram das redes sociais.

A proposta, defendida pelo presidente da Câmara Hugo Motta, Republicanos-PB, e relatada por Domingos Neto, PSD-CE, retoma o projeto de José Serra, PSDB-SP, aprovado no Senado em 2017.

A medida, porém, só valeria a partir de 2028 para grandes cidades e, depois, nas eleições gerais de 2030.

O argumento oficial fala em proximidade entre eleitor e eleito e maior fiscalização para evitar a infiltração do crime, mas especialistas apontam falhas, pois facções já elegeram prefeitos em 2024 sob o sistema majoritário e o mapa eleitoral pode ser manipulado para favorecer caciques, um risco à brasileira de gerrymandering, como nos Estados Unidos.

O alvo real é o voto de opinião e o fenômeno digital, pois nomes como Nikolas Ferreira, PL-MG, e Guilherme Boulos, PSOL-SP, que puxaram colegas ao Congresso, perderiam capacidade de expandir bancadas.

Com distritos menores e listas fechadas, partidos ganham poder e influenciadores, movimentos de rede e candidaturas orgânicas perdem espaço, reduzindo a oxigenação política e privilegiando cartórios partidários, na prática, menos TikTok e mais balcão.

Há ainda o risco de vereadorização do Congresso, com distritos transformados em currais eleitorais, fortalecendo oligarquias regionais e esvaziando debates nacionais.

É legítimo discutir o modelo eleitoral, mas vender centralização de poder como combate ao crime distorce a democracia.

Se o objetivo é blindar eleições de organizações criminosas, o caminho está no fortalecimento da Justiça Eleitoral, do controle de financiamento e da transparência, não no cerco ao voto popular e à representação plural.

A disputa é entre quem deseja abrir a política e quem tenta recolocar correntes e cadeados, com o recado implícito, menos povo, mais cúpula.

A democracia avança com pluralidade e controle social, não com filtros impostos pelos donos da chave.

Boulos: "Me deu uma dor de cabeça danada e nunca mais"
Guilherme Boulos (PSOL-SP) é um fenômeno de votos, que puxa a bancada do partido.