Um apagão em Curitiba atinge bairros inteiros desde a manhã desta quarta-feira (10) e deixa milhares de moradores no escuro, situação que reforça a suspeita de sucateamento da Copel após a privatização conduzida pelo governo do Paraná em 2023.
A capital paranaense registra instabilidade elétrica desde cedo em regiões como Centro, Batel, São Francisco, Santa Felicidade, Campo do Santana, Tatuquara e Pinheirinho. Moradores relatam longas horas sem fornecimento, interrupção de aulas, prejuízo no comércio e improvisos que beiram o absurdo para uma cidade do porte de Curitiba.
Um leitor do Blog do Esmael contou que, sem energia desde a manhã, precisou recorrer a um posto de gasolina com gerador para carregar o celular. Há também registros de moradores da área histórica preparando jantar à luz de vela, cena que virou piada involuntária sobre o “romantismo forçado” da burguesia curitibana diante do caos energético.
O episódio soma-se à série de apagões recentes em várias cidades do Paraná e empurra para o centro do debate público o impacto da privatização da Copel.
Ontem (9), uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) lançou oficialmente o movimento pela reestatização da Copel, reunindo especialistas, sindicatos e lideranças comunitárias preocupadas com o aumento dos apagões e com o enfraquecimento operacional da companhia.
O deputado Arilson Chiorato (PT), líder da Oposição, afirmou que a Copel perdeu metade da força de trabalho após o PDV promovido pela gestão privatizada. Segundo ele, quedas frequentes de energia, demora na religação e ordens de serviço sem resposta viraram rotina.
“A empresa que já foi a mais premiada no ramo hoje é a primeira em reclamações”, disse Chiorato, que anunciou a coleta de assinaturas para um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que permita ao Estado recomprar ações e retomar o controle.
A campanha, apresentada também pelo ex-deputado André Vargas, pretende reunir ao menos 90 mil assinaturas. A Constituição estadual exige apoio de 1% do eleitorado para que a proposta tramite, distribuído em pelo menos cinquenta municípios. A coleta será presencial e também digital, com certificação.
Os prejuízos econômicos foram detalhados pela deputada Luciana Rafagnin (PT), que relembrou apagões de setembro que afetaram mais de 1 milhão de imóveis e causaram perdas graves na produção agropecuária. Produtores de frango, leite e tilápia relataram danos. Para o deputado Professor Lemos (PT), o corte de mais de 1,4 mil eletricistas após a privatização ampliou o tempo de resposta e comprometeu a manutenção preventiva.
Engenheiros apresentaram dados da Aneel mostrando aumento do tempo médio de reparo, de 1h30 em 2010 para 4h30 em 2025, além de explosão nos valores de compensações pagas a consumidores, que saltaram de R$ 100 mil para R$ 4 milhões ao ano. “Haveria aumento nos lucros e piora na qualidade. É o que estamos vendo na prática”, disse Leandro Grassmann, do Senge-PR.
No entanto, o apagão que atinge várias áreas na capital paranaense dura mais de 8 horas.
Movimentos populares alertaram para os impactos nos bairros periféricos, onde apagões significam perda de eletrodomésticos, alimentos e segurança. No caso de Curitiba, moradores de Tatuquara e Campo do Santana relatam prejuízos que vão além do desconforto: famílias inteiras sem refrigeradores funcionando, com risco de perda da comida da semana.
A venda de patrimônio da Copel, como a Usina Termelétrica de Araucária, também foi criticada por dirigentes sindicais, que enxergam um desmonte acelerado da estatal. “A Copel de 2023 não existe mais. Está sendo fatiada e vendida em partes”, afirmou Alexandre Hungaro, da CTB.
O apagão desta quarta é mais um sintoma dessa deterioração. A Copel, que por décadas foi motivo de orgulho dos paranaenses, parece incapaz de garantir o básico: energia estável em uma capital de quase 2 milhões de habitantes.
O debate sobre a reestatização ganha corpo, e o drama vivido pelos curitibanos hoje, no escuro, promete acelerar esse movimento.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




