O Brasil sequestrado, artigo de Enio Verri

O Brasil sequestrado

Enio Verri*

A sociedade brasileira, e aí se incluem as instituições do Estado e as privadas, como os conglomerados de comunicação, está condenada, cada qual, a explicar o que a faz tolerar a família Bolsonaro. Ela sequestrou o Brasil para a dimensão dos seus problemas privados, todos, no âmbito da justiça criminal. Enquanto Bolsonaro era um parlamentar bravateiro, cujos esquemas não eram públicos, ele e a podridão de sua família passaram despercebidos. Porém, na Presidência, o poder institucional ganha dimensões perigosíssimas, se manejado por alguém cego, vaidoso, inepto, inapto e, pior, a serviço da classe dominante mais cafona e brutal do planeta, que não tem relação alguma com este País, estando sempre inclina a desfazer-se dele, por menos de 30 moedas.

A confusão de realidade vivida pelo Brasil, desde 2014, conta com o intenso trabalho da imprensa comercial, que assinou as coautoria e coprodução do carnaval parlamentar de 17 de abril de 2016, também conhecido como o Dia da Vergonha. Desde então, chegamos ao ponto em que a sociedade acredita, até hoje, que o tal triplex é do Lula, assim como, também, acredita que o advogado da família Bolsonaro, cuja empresa da ex-esposa recebeu do governo federal, em um ano, um aditivo de R$ 165 milhões, nunca percebeu que ele e o Queiroz coabitavam uma casa, há um ano. Porém, o mais grave é que não se trata de uma fantasia senão de uma bárbara realidade na qual está submetida toda uma nação, enquanto que a atenção Bolsonaro ao combate à pandemia é zero.

O enfrentamento está sendo feito por prefeitos e governadores, com quem Bolsonaro criou todo tipo de crise para fugir da sua responsabilidade e imputar o desastre aos gestores municipais e estaduais. Ele tentou fazer, mas foi duramente rechaçado não apenas pelos próprios, mas pelo Congresso Nacional. Aliás, Câmara dos Deputados e Senado, desde o início da pandemia, assumiram o protagonismo do enfrentamento à realidade na apresentação das melhores políticas contra a pandemia, como souberam se organizar para barrar os absurdos encaminhados por Bolsonaro e Guedes. A oposição tem 131 votos. Pelo número de propostas aprovadas em defesa da classe trabalhadora e de propostas barradas, que eternizam os privilégios da classe dominante, a oposição tem feito um belo e maduro trabalho de articulação política e tem apresentado projetos de qualidade, que conquistam votos de políticos de espectro ideológico liberal.

Essa realidade não é mostrada e nem contextualizada pela imprensa comercial, porque não interessa a quem ela representa que a sociedade saiba o que acontece. Bolsonaro é o preço que o Brasil paga para a classe dominante sustentar Guedes, cuja tarefa é transformar este País numa grande fazenda, num entreposto continental para o desenvolvimento de outros povos. É preciso libertar a nação desse sequestro, antes que Bolsonaro confirme expectativas de mais de um milhão de mortos. O despertar da nação é o caminho para se tentar evitar o grande desastre que se anuncia nos números que não param de crescer. A nefasta fantasia da família Bolsonaro é a macabra realidade de milhões de brasileiros que ainda não receberam sequer uma única parcela do auxílio emergencial, de R$ 600, enquanto banqueiros já receberam mais de R$ 2 trilhões, a título de garantia de lucros.

Bolsonaro e Guedes querem extinguir o auxílio emergencial, alegando que a União não aguenta pagar, o que é uma grande mentira. Ainda que não tivesses as condições, faça como o presidente Trump, rode dinheiro, proteja a população e, depois, veja como recuperar a economia, pois vidas não voltam. Aliás, a dupla despreza justamente o motor que poderia fazer com que o fiasco da economia não seja tão pior do que será sem ele. Pesquisadores e imprensa internacional apontam que a manutenção e ampliação da renda básica proporcionará um pequeno aquecimento da economia. Porém, vidas da classe trabalhadora e o sucesso da economia brasileira é tudo que o ministro e o presidente não desejam. O Brasil não aguenta mais um ano desse desgoverno. Retardar o seu impedimento custará um preço muito caro. Fora, Bolsonaro.

*Enio Verri é economista e professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Marginá (UEM) e está deputado federal e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados.

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