Coluna do Rafael Greca: Curitiba merece tranquilidade e saúde

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Em sua coluna semanal, Rafael Greca fala do drama atual da saúde pública em Curitiba. São longas esperas, falta de leitos, dívidas da administração municipal para com os hospitais, falta de atendimento psiquiátrico, e por aí vai. Greca comenta o Protocolo de Manchester utilizado para triagem nas UPAs, e tenta entender como acontecem mortes de pacientes a espera de atendimento nessas Unidades de “Pronto Atendimento”. Leia, ouça, comente e compartilhe.

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Rafael Greca*

O drama da atual precariedade de atendimento básico de Saúde ao Povo Brasileiro também lança suas sombras – de medo e morte – sobre nossa Grande Curitiba.

Informa a Associação Médica Brasileira que nos últimos 7 anos, no Brasil, foram fechados 70 mil leitos de SUS.

Esta retração no sistema de saúde pública também aconteceu na Curitiba metropolitana: fecharam leitos no Hospital de Clínicas, no Hospital Evangélico, na Santa Casa. O Hospital Nossa Senhora das Graças deixou de atender o SUS, com perda de 300 leitos.

Fecharam definitivamente suas portas os hospitais do Carmo – no Boqueirão, São Carlos – no Jardim das Américas, Erasmo de Roterdam – na rua Mateus Leme.

Para piorar a atual Prefeitura de Curitiba ainda está em débito com os Hospitais. Atrasa pagamentos de serviços realizados. Só ao Hospital Pequeno Príncipe, R$ 10 milhões. No Erasto Gaertner arrastam-se obras de ampliação, ainda que a qualidade do serviço permaneça humanitária.

A conta negativa não foi zerada pela abertura do Hospital do Idoso, do Hospital Rocio em Campo Largo, ou por ampliação do Angelina Caron, em Campina Grande do Sul.

Outros hospitais – bandeira de promessas eleitorais de Fruet, Ducci, Ratinho – tipo Hospital da Mulher, Hospital do Homem, Hospital da Zona Norte, não passam de névoas do nada.

O Centro de Especialidades Médicas previsto para o terreno anexo à Arena do Atlético chafurda no fiasco, sepultado na lama da última Copa do Mundo.

Também endereços tradicionais de solícito atendimento psiquiátrico desapareceram ou encolheram. Em 2005 tínhamos 542 leitos de SUS para psiquiatria em Curitiba.

Nas eras Ducci e Fruet o quadro piorou: no final de 2013, foram descredenciados 182 leitos. Apenas 67 vagas foram criadas.

Perdemos o Hospital Bom Retiro para a especulação imobiliária. Encolheu Hospital N. S. da Luz, por ordens do Ministério da Saúde, cumprindo a Lei de Reforma Psiquiátrica. Seus substitutivos, os CAPS – Centros de Atendimento Psicosocial, ligados à F.A.S., deixam a desejar.

O ponto mais crítico é que os doentes só podem surtar em horário comercial, das 8:00 às 16:00 horas. Fora desse horário, perversidade da burocracia pública municipal, são abandonados à sua própria sorte, quiçá falta de sorte.

Falta financiamento, não se executam os serviços necessários, essenciais à Saúde e à Vida. O povo é desrespeitado, enganado por marketing pré-eleitoral.

Um calafrio na espinha é inevitável quando se lê entrevistas como a do Ministro da Saúde, Marcelo Castro (PMDB-PI) , seis dias atrás,à Folha SP, afirmando: “o que está ruim, vai piorar ”(sic).

Sua Excelência antecipa para 2016 novo pesadelo, com atraso de repasses para hospitais e farmácias populares. Patético, o ministro de Dilma agarra-se à defesa da CPMF, ainda não votada, nem vigente, como única tábua de salvação do SUS.

Fruet foi consagrado nas urnas por sua aliança com o PT. Rostinho colado em Gleisi (PT), mãos dadas com Paulo Bernardo e André Vargas, prometeu “fazer a diferença” para Curitiba. Pelo jeito, foi uma promessa a menor.

O circo de horrores da Saúde Pública não termina seu sinistro espetáculo por aí. Experimentem ir a uma UPA no meio da noite, com as aflições próprias de quem, tendo perdido a saúde, o sono e a tranquilidade, necessita médico, cuidado e remédio.

Logo na entrada da UPA a ansiosa vítima é apresentada ao Protocolo de Manchester.

Um enfermeiro classifica os pacientes na triagem distribuindo pulseiras plásticas coloridas (foto), ditas de identificação hospitalar.

Esta triagem, dizem as Autoridades Sanitárias locais, obedece às normas criadas na cidade britânica, em 1997. Falam com a gravidade de quem recebeu tais instruções psicografadas da própria Florence Nightingale (1820-1910), enfermeira inglesa,anjo humanitário da Guerra da Criméia, ou da própria Rainha Elizabeth II.

Pulseira Vermelha para casos de Emergência – atendimento imediato – sem espera. Pulseira Laranja para casos Muito Urgentes – atendimento praticamente imediato – 10 minutos de espera. Pulseirinha Amarela para casos de Urgência – atendimento rápido mas pode aguardar até 50 a 60 minutos.

Pulseira Verde para casos Pouco Urgentes – pode aguardar atendimento ou ser encaminhado para outro serviço de saúde. Espera de 2 horas. E finalmente pulseira Azul para casos Não Urgentes – pode aguardar atendimento ou ser encaminhado para outro serviço de saúde, após 4 horas de espera.

A Prefeitura de Curitiba até hoje não explicou que cor foi da pulseira dada ao músico Emerson Antoniacomi (40)? Vítima de AVC, Emerson esperou 38 horas por atendimento médico , num drama que começou na UPA da Boa Vista e terminou em óbito nas portas do Hospital Angelina Caron. Era maio de 2012. A vaga de UTI lhe foi negada, e seu irmão Anderson jura que “pediram R$ 30 mil para abrir espaço numa UTI particular” (sic).

Também quero saber a cor da pulseirinha aposta ao bebê curitibano ( de apenas 46 dias) que faleceu, após 6 horas de espera, às portas da mesma UPA da Boa Vista, dia 16 de maio de 2014?

O pai, Eduardo Alves, disse à Gazeta que ” um hospital particular pediu caução de R$ 65 mil para franquear ao seu desditoso filhinho o berço de UTI que necessitava” (sic).

Quem votou no prefeito Fruet, pode perguntar qual a cor foi da pulseira dada a Maria da Luz das Chagas dos Santos (foto), morta aos 37 anos por omissão de socorro na UPA da Fazendinha, na noite de São João deste ano?

A 24 de junho, Maria da Luz foi levada, com fortes dores, ao posto 24 Horas da rua Carlos Klempz, passou pela avaliação de risco às 19:00 e morreu na calçada fronteira ao posto às 23 horas, com omissão de socorro.

Falaram que havia 50 pessoas na frente dela. Um médico apareceu na TV gritando se filmar com o celular aí é que não atendo. Quando a mulher voltou da farmácia particular fronteira ao posto, onde,desesperada fora, levada por parentes desesperados buscar socorro para a dor, recusaram-se a atendê-la porque o protocolo impedia atendimento fora do posto. Já a Central de Ambulâncias disse não poder recolhê-la porque estava em frente da UPA.

Kafka, o cronista do absurdo, naquela noite, ali na Fazendinha tornou-se cidadão curitibano.

Os três episódios, contribuição curitibana à História Universal da Infâmia, poderiam ter sido evitados se a Prefeitura de Curitiba desse formação específica para médicos, enfermeiros, atendentes que trabalham nas UPAS e Pronto-Socorros. Isto não se faz.

No mundo dito desenvolvido – Europa principalmente – os melhores profissionais vão para o pronto atendimento. Afinal, lidam com situações limite entre a Vida e a Morte. O melhor especialista para cuidar das pessoas no momento mais crítico.

Erro grave cometeram os prefeitos Beto Richa, Ducci e Fruet ao considerar os Postos 24 Horas que – em sua maioria – eu construí entre 1993-1996, como um hospital, ao mudarem o seu nome para UPAs – Unidades de Pronto Atendimento. Propaganda enganosa. O atendimento ali é comprovadamente lento.

Nossos postos 24 Horas – antecessores físicos das UPAS – foram concebidos como espaços de triagem para futuro internamento hospitalar, com imediato encaminhamento a serviços médicos de maior complexidade.

Nos 24 Horas ninguém ficava internado mais que um dia, ia adiante para serviços hospitalares de Pediatria, Gineco-Obstetrícia, Clínica Geral. Atendimento de urgência e emergência.

Com a criação do Hospital do Bairro Novo, em parceria com a Organização Mundial da Família, resolvemos o pronto atendimento de gestantes da região sul da cidade, até então obrigadas a vir ao centro, em busca dos leitos SUS das maternidades Mater Dei, N.S.de Fátima, Santa Brígida, Victor do Amaral, quando não obrigadas a dar a luz no Hospital do Trabalhador. Isto foi o embrião do programa “Nascer em Curitiba Vale a Vida”, de 29 de março de 1993, depois chamado Mãe Curitibana.

Os nossos cinco Postos 24 Horas tinham retaguarda: o Fundo Municipal de Saúde da minha gestão geria 4 mil leitos. Era de R$ 30 milhões/mês. Tínhamos 33 hospitais credenciados ao SUS/Curitiba.

Talvez por isso, nas gestões dos secretários municipais médicos Armando Raggio e João Carlos Baracho, eu , então prefeito, não tive que fazer visitas de pêsames, nem pedir desculpas por omissão de socorro. Tenho orgulho, e sou imensamente grato à minha valorosa equipe de saúde e dos servidores municipais de Curitiba.

Os então 93 postos municipais de saúde eram bem cuidados. Nada parecido com o atual atual abandono do postinho Monteiro Lobato (foto). Os Postos eram ainda supridos de 81 medicamentos básicos essenciais, gratuitamente distribuídos, a partir de 1993, pelas nossas Farmácias Curitibanas.

Esta nossa iniciativa, apoiada pelo então ministro da Saúde Jamil Hadad, seria depois inspiradora da política nacional de genéricos e da atual Farmácia Popular – hoje infelizmente ameaçada de extinção pela penúria do Governo Federal de cofres saqueados.

Os gregos, que começaram a exercer sua história como um Pacto de Civilização, entre os governantes e os cidadãos, sabiam das coisas. Para eles, a deusa da Saúde era Hygéia. A tranquilidade, a higiene. Ela era tão serena que amamentava a serpente da Sabedoria em seu seio. Sem medo do veneno, que, em doses menores, é remédio.

Saúde é tranquilidade. Permita, o meu anjo protetor, Arcanjo Rafael, cujo nome quer dizer “Deus quando cura”, que possamos de novo devolver tranquilidade à saúde pública dos curitibanos. Oremos.

*Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, é engenheiro. Escreve às quartas-feiras no Blog do Esmael sobre “Inteligência Urbana”.

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