Por Esmael Morais

Coluna do Ricardo Gomyde: O Paraná diante de uma encruzilhada histórica

Publicado em 04/10/2014

Consumo per capita

Segundo números divulgados esta semana pela IPC Marketing Editora, especializada no cálculo de índices de potencial de consumo, o Paraná foi grandemente beneficiado pelo ciclo iniciado, no âmbito federal, nos anos 2000. Em 1999, o potencial de consumo total no Estado foi de cerca de R$ 40,6 bilhões; a estimativa para este ano é de que o paranaense gaste R$ 200,7 bilhões, um salto de mais de 440%, ou R$ 160,1 bilhões de diferença.

Nosso estado poderia ter aproveitado bem melhor esse cenário que se repete em todo o país, reflexo das políticas econômicas que olharam para a distribuição da renda e para a ampliação do consumo. O impacto de medidas para gerar emprego e renda !” como a valorização do Salário Mínimo e os programas sociais, como o Bolsa Família! e Minha Casa, Minha Vida”, para citar apenas alguns exemplos !” na expansão das classes que antes viviam à  margem do consumo é gigantesco.

Os brasileiros, atualmente, segundo os dados da Marketing Editora, consomem quase R$ 3,3 trilhões, ante os R$ 566 bilhões movimentados em 1999. De acordo com o levantamento, o consumo per capita da população residente nas áreas urbanas subiu de R$ 4,4 mil em 1999, para R$ 17,7 mil em 2014, o que representa uma variação de mais de 303%.

Manutenção do lar

No Paraná o potencial de consumo das classes B e C !” as mais beneficiadas pelas políticas do governo federal !” respondem por quase três quartos da capacidade de consumo no Estado (R$ 143 bilhões para este ano). A classe A, sozinha, responde por R$ 35,3 bilhões. As classes D e E colaboram com mais R$ 4,7 bilhões de expectativa de consumo, mesmo correspondendo a apenas 9,35% dos domicílios no Estado.

Segundo o levantamento, de longe a manutenção do lar é o que mais leva o paranaense a gastar. São R$ 43,6 bilhões de capacidade de gastos previstos para este ano. Em 1999 eram R$ 5,5 bilhões. O segundo item em que o paranaense mais gasta é alimentação no domicílio !” R$ 17,9 bilhões em 2014 contra R$ 6,7 bilhões em 1999. A manutenção do veículo próprio neste ano deve ficar em R$ 10,4 bilhões contra R$ 1,3 bilhão em 1999. Material de construção é outro que tem potencial de consumo importante para este ano, e chega a R$ 16,5 bilhões. Há 15 anos nem constou da relação.

Lembremos que, no começo dos anos 2000, de cada cinco pessoas duas só ganhavam o suficiente para comprar o básico !” e outras duas nem para isso ganhavam. Os 137 milhões de brasileiros que pertenciam à s classes C, D e E !” cerca de 81% da população, segundo classificação dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) !”, tinham renda mensal bruta que lhes impediam de ter qualquer poder de escolha nas decisões de consumo. Cerca de 65% dos viventes, com rendas irrisórias ou desempregados, não tinham nem conta corrente. Essa questão também encalacrava muitos empresários: vender para quem?

Trabalhador e produtor

O Paraná, portanto, tem diante si uma chance de ouro para alavancar o seu desenvolvimento, partindo dessa rica base formada pelo ciclo iniciado em 2003 no país. Podemos fazer do governo e dos representantes paranaenses no Congresso Nacional ativos jogadores de um time que vista, de verdade, a camisa do povo.

Do trabalhador ao empresário, temos a oportunidade de otimizar nossa economia, priorizando as demandas que ficaram esquecidas nesses anos em que o nosso Estado esteve em mãos dos que jogam contra os interesses populares. Se o trabalhador tem motivos para adotar essa lógica, o produtor não fica atrás !” pois seu lucro está cada vez mais atrelado ao poder de compra dos consumidores, bem como à  inclusão dos excluídos na ala economicamente ativa da sociedade.

O acesso ao consumo mínimo é um direito individual fundamental em uma sociedade democrática. A tentativa de instaurar aqui um Primeiro Mundo para poucos, como uma espécie de clube privado, talvez seja a mais perversa face da crise que o Brasil vem superando, estendendo a cidadania a todos os brasileiros. Um Estado indutor da economia, que parta da valorização dos direitos do povo e da aplicação de fortes políticas sociais, funcionaria como alavanca para a solução de muitas de nossas mazelas. Em resumo: os passos que darmos hoje é que definem o caminho para o futuro. Esse lema deve estar na cabeça de todos os cidadãos e cidadãs amanhã na hora do voto.

*Ricardo Gomyde, especialista em políticas de inclusão social, foi membro da Comissão Organizadora da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Escreve nos sábados no Blog do Esmael.