O advogado-geral da União Jorge Messias terá sabatina no Senado no próximo dia 29 de abril, com votação no plenário no mesmo dia, enquanto o veto integral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao PL da dosimetria foi pautado pelo presidente do Congresso Davi Alcolumbre (União-AP) para quinta-feira (30). A virada de abril concentra, em 48 horas, duas decisões que recolocam Planalto, Congresso, Supremo Tribunal Federal (STF) e bolsonarismo no centro da disputa política.
Separadas, essas pautas já seriam explosivas. Juntas, alimentam em Brasília a leitura de um arranjo de conveniências às vésperas da eleição de 2026. Não apareceu, até aqui, prova pública de pacto formal. O que apareceu foi uma sequência objetiva de movimentos que reduz dano para muita gente ao mesmo tempo.
Para o Planalto, a prioridade é cristalina. Se Jorge Messias passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pelo plenário no mesmo dia, Lula consolida uma indicação estratégica para a Suprema Corte no exato momento em que o sistema político tenta reorganizar suas trincheiras.
No dia seguinte, Alcolumbre leva ao Congresso uma pauta única, o veto total ao PL da dosimetria, que tratava da redução de penas para condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. O gesto devolve protagonismo ao Congresso e oferece ao bolsonarismo uma vitrine de alto impacto simbólico.
No meio desse roteiro, Alcolumbre decidiu não prorrogar a CPI do Crime Organizado, que será encerrada na terça-feira (14). Segundo o relator Alessandro Vieira (MDB-SE), a justificativa apresentada foi a inadequação de estender a comissão às vésperas do calendário eleitoral. A decisão saiu justamente quando a CPI tentava avançar sobre o Caso Master, atingindo majoritariamente políticos ligados ao Centrão e à direita.
O efeito político é direto. O Caso Master perde palco no Congresso e volta a ficar concentrado no STF e na Polícia Federal (PF). André Mendonça assumiu a relatoria do inquérito em fevereiro e, em 18 de março, prorrogou por mais 60 dias o prazo para a PF concluir as investigações.
No outro front, o Supremo derrubou por 8 votos a 2 a prorrogação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em 26 de março. Dois dias depois, a comissão terminou sem relatório final aprovado. Agora, a base governista tenta reabrir o caso por outra porta: parlamentares entregaram um relatório alternativo a André Mendonça na quarta-feira (8), e o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) afirmou que o ministro informou que o material seria remetido à PF.
É aí que o radar do acordão acende em Brasília. O Congresso desliga uma CPI que se aproximava do coração do sistema político-financeiro, o STF concentra o destino dos casos mais sensíveis, o Planalto acelera sua vaga na Corte e o bolsonarismo ganha um palanque de grande apelo com a dosimetria.
Cada grupo preserva alguma coisa. O governo tenta emplacar seu nome no Supremo. O Congresso administra o desgaste. O bolsonarismo recupera uma bandeira mobilizadora. E os oligarcas do sistema financeiro respiram melhor quando a investigação perde microfone e volta ao corredor fechado das decisões judiciais.
Brasília conhece esse método. Quando a temperatura sobe e a eleição se aproxima, a praça dos Três Poderes costuma trabalhar menos para esclarecer tudo do que para redistribuir o risco entre os de sempre.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




