Vende-se o Brasil, enquanto o país fala em soberania, bancos e corretoras intensificam fóruns com governadores e presidenciáveis da direita, financiam pesquisas eleitorais e pautam o debate sob a sombra do tarifaço de 50% de Donald Trump e das sanções a autoridades, um circuito que tenta influenciar a política ao gosto do mercado.
Eventos sob medida, plateia cativa
BTG Pactual e XP montam palcos que soam como sabatinas informais para futuros candidatos.
Na quarta-feira (13/08), o AgroForum 2025 do BTG exibiu essa coreografia com CEOs e autoridades, transmissão aberta e enquadramento pró-mercado.
Na Expert XP 2025, Tarcísio de Freitas (SP), Ratinho Junior (PSD), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO) ocuparam painel estratégico, mensagem de aliança à direita rumo a 2026.
Na quarta-feira (20/08), Caiado, Helder Barbalho (PA), Romeu Zema (MG) e Eduardo Leite participaram da 26ª Conferência Anual do Banco Santander, em São Paulo.

A engrenagem das pesquisas e quem paga a conta
O dinheiro do mercado banca boa parte das sondagens, com efeito imediato na pauta pública.
A Genial mantém parceria orgânica com a Quaest, com páginas comerciais que apresentam as rodadas e relatórios.
A XP historicamente financiou levantamentos com o Ipespe e, em 2022, alterou periodicidade e formato após pressões, sem romper a lógica de patrocínio privado.
O BTG contratou o Instituto FSB em séries de 2022, com registro no TSE e metodologia telefônica.
O Poder360 tem o DataPoder, que tem um banco por trás, o MagaluBank, enquanto o Datafolha, do Grupo Folha, tem o PagBank, controlador da máquina de pagamentos Moderninha.
Transparência do contratante e do método é condição mínima para leitura crítica.
Nesses levantamentos, a pedido do cliente, se elimina potenciais concorrentes, se exclui a disputa, em nome da constinuidade cessante do lucro e de projetos lesa-pátria.
Tarifaços e sanções, o pano de fundo

Na quarta-feira (30/07), Trump assinou ordem executiva que totalizou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, com exceções setoriais como parte dos itens de cobre.
O governo brasileiro levou a disputa à OMC e negocia brechas e exclusões.
O pacote afeta cadeias exportadoras e vira instrumento de pressão política.
Sanções e o dilema bancário
As sanções dos EUA contra o ministro do STF Alexandre de Moraes expuseram bancos brasileiros a conflito de jurisdição.
Nesta quinta-feira (21/08), o Banco do Brasil trocou a bandeira americana do cartão do ministro pela nacional, a Elo, caso que ilustra o alcance extraterritorial de normas financeiras e a tensão entre cumprir ordens estrangeiras e obedecer à lei brasileira.
Relatos do mercado e pronunciamentos judiciais reforçam que instituições não podem aplicar sanções externas sem validação doméstica.
A questão é simples: eventuais sanções devem atingir quem patrocina o jogo, os bancos privados da Faria Lima, e não os bancos públicos, cuja conta recai sobre o contribuinte.

Soberania é Constituição, não slogan
A Constituição define bens estratégicos da União e protege o subsolo, as jazidas e potenciais de energia como propriedade distinta do solo.
Defender soberania é defender a Carta, as leis do trabalho, as empresas estratégicas e o patrimônio natural, contra captura por interesses de curto prazo.
Está escrito, preto no branco, nos artigos 20 e 176.
Como se fabrica consenso
Quando quem tem chequera pauta painéis, financia pesquisas e conversa de camarote com a velha mídia, o jogo fica desigual.
Não se trata de proibir sondagens, e sim de escancarar o ecossistema: quem paga, que pergunta, que método, que candidatos, que data e que contrato.
Sem isso, a pesquisa vira marketing com margem de erro e grosseira especulação à luz do dia.
O fio entre Faria Lima e os presidenciáveis
A intensificação de agendas de governadores em fóruns financeiros serve para testar narrativas, medir aplausos e organizar apoios de oligarcas.
É um laboratório político com viés de classe, que busca um herdeiro do bolsonarismo sem Bolsonaro, embalado por promessas de desregulação e privatização ampla.
O que fazer, em nome da soberania

Transparência radical em pesquisas, com contratante destacado e bases abertas.
Regras de acesso equânimes a eventos que hoje são monólogos, com imprensa plural e pergunta dura.
Defesa ativa dos artigos constitucionais sobre bens estratégicos e recursos naturais.
E uma política industrial e tecnológica que não trate o Brasil como ativo à venda em conferência de investimento.
Leia também no Blog do Esmael: Deputado Arilson Chiorato denuncia interesses do BTG Pactual na dívida bilionária da Copel; Moraes confronta testemunha sobre 8/1 no STF, enquanto EUA restringe visto a autoridades estrangeiras; Pesquisa revela como Lula influencia os deputados federais

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




