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Valdemar diz ‘não gostei’ e leva crise de Flávio ao PL

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reprovou nesta quinta-feira, 29 de outubro, a carta em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se apresenta como “líder do Brasil” e contesta o resultado da eleição presidencial. Ao comentar o documento, Valdemar foi direto: “Não gostei”.

O dirigente planeja tratar da repercussão com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda nesta quinta-feira. A conversa foi confirmada por interlocutores do partido e ocorre no momento em que a legenda tenta conter o desgaste provocado pela fuga do senador para os Estados Unidos e pela publicação do texto.

Integrantes do PL avaliam, sob reserva, que a carta golpista isola Flávio e enfraquece a oposição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação é que o senador perdeu condições de se apresentar como líder da oposição, papel que ele próprio tentou se atribuir no documento divulgado na quarta-feira, 28.

A senadora eleita Michelle Bolsonaro aparece como nome capaz de ocupar esse espaço. A hipótese, porém, enfrenta resistência dentro da própria família. Os enteados de Jair Bolsonaro não querem a ascensão da madrasta, e a disputa trava a reorganização do campo bolsonarista no Senado e na Câmara dos Deputados.

A carta também produziu um efeito imediato fora do PL. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que é preciso respeitar o resultado das eleições e seguir em frente. O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), disse não ter provas de fraude e defendeu a preparação da oposição para o quarto mandato de Lula.

O União Brasil, que integrou a aliança eleitoral do senador, repudiou o teor do documento. Lideranças evangélicas que apoiaram a candidatura também divergiram publicamente do texto. O apoio mais explícito veio da bancada mais radical do PL na Câmara, que corre o risco de ficar isolada.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pelo ministro Nunes Marques, divulgou nota na qual confirmou que as eleições transcorreram dentro da normalidade e que o resultado foi proclamado, com a vitória de Lula. Nunes Marques foi indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro.

O ex-presidente do STF Celso de Mello classificou como de “extraordinária gravidade política” a tentativa de se dirigir ao povo brasileiro e à comunidade internacional atribuindo-se a condição de presidente eleito. “Ninguém adquire um mandato presidencial por autoproclamação”, afirmou.

No Senado, o desgaste se soma ao risco de perda do mandato por faltas. Flávio acumula 11 ausências não justificadas em 2026 e pode atingir o limite de um terço das sessões deliberativas em dezembro. O regimento prevê que a Mesa declare a perda do mandato, com ampla defesa, sem votação em plenário.

A crise chega ao comando do partido num momento em que o PL saiu das urnas com a maior bancada da Câmara e tenta se posicionar como principal força de oposição. A dúvida, agora, é quem fala pelo campo bolsonarista: o senador em Miami, a senadora eleita ou o próprio Jair Bolsonaro, que cumpre pena em prisão domiciliar.