Trump promete reduzir guerra, mas Natanz amplia crise

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acenou neste sábado (21) com a ideia de “reduzir” a guerra contra o Irã, mas os fatos no terreno andaram na direção oposta. Natanz voltou a ser atingida, os EUA ampliaram a presença militar no Oriente Médio e o Estreito de Ormuz segue no centro de uma crise que já contaminou petróleo, inflação e a própria popularidade da Casa Branca.

Segundo a agência iraniana Tasnim, a instalação nuclear de Natanz foi alvo de uma nova ação conjunta de EUA e Israel na manhã deste sábado. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que foi avisada por Teerã sobre o ataque e disse não ter registrado aumento nos níveis de radiação fora do complexo, o que reduz, por ora, o risco imediato de contaminação externa.

A contradição política está posta. Trump fala em descompressão do conflito e em transferir a outros países a tarefa de proteger o fluxo marítimo em Ormuz, mas o Pentágono enviou milhares de militares adicionais, entre fuzileiros e marinheiros, para reforçar uma região que já contava com cerca de 50 mil soldados americanos. Entre as hipóteses discutidas por autoridades ouvidas por agências de notícias estão justamente operações para garantir a navegação no estreito, ponto mais sensível da guerra econômica.

Não se trata de uma guerra “lá longe”. O Estreito de Ormuz responde por cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito negociados no mundo, e a interrupção do tráfego já produziu um choque de energia que a própria Agência Internacional de Energia classificou como o mais grave da história. Os preços do petróleo dispararam, mercados globais passaram a rever expectativas de juros e a inflação voltou ao radar com força.

É aí que a guerra bate de frente com a política doméstica americana. A gasolina nos EUA chegou a uma média nacional de US$ 3,912 por galão na sexta-feira (20), maior nível desde outubro de 2022, e uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 55% dos americanos já sentem aperto financeiro com a alta dos combustíveis. No mesmo levantamento, a aprovação de Trump no custo de vida caiu para 29%, um sinal de desgaste perigoso às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro.

A pressão é tão concreta que já obrigou o governo americano a mexer em instrumentos de emergência. Washington liberou petróleo da reserva estratégica para tentar aliviar a escalada dos preços, enquanto o estado da Geórgia suspendeu por 60 dias o imposto estadual sobre gasolina e diesel. Em outras palavras, a guerra que Trump vende como demonstração de força já entrou na bomba, no supermercado e no cálculo eleitoral.

Para o Brasil, a conta é fácil de entender. Se Ormuz continuar estrangulado e o petróleo seguir pressionado, o efeito tende a aparecer em cadeia no diesel, no frete, no custo dos fertilizantes e, mais cedo ou mais tarde, no preço da comida. O que começou como ofensiva militar virou também disputa por energia, renda e estabilidade política.

Trump tenta vender recuo enquanto a guerra sobe de patamar. Quando o presidente fala em freio, mas manda mais tropas, reforça a leitura de que a Casa Branca perdeu o controle da narrativa e ainda não encontrou uma porta de saída. No fim, a guerra no Irã pode custar a Trump bem mais do que barris e mísseis: pode custar autoridade política dentro de casa.

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