Trump eleva alerta, Taiwan vira risco global dos chips

O presidente Donald Trump foi colocado no centro de uma advertência que o Vale do Silício empurra com a barriga: se a China bloquear Taiwan e cortar a exportação de chips, a indústria de tecnologia dos EUA e a economia global entram em pane.

O alerta ganhou força num relato publicado nesta terça-feira (24) por Tripp Mickle, do New York Times, com base em documentos, visitas a fábricas e entrevistas com mais de 60 pessoas do governo e do setor. Autoridades americanas vêm fazendo briefings reservados com executivos de empresas como Apple, AMD e Qualcomm para tratar Taiwan como “ponto único de falha” do capitalismo digital.

O nó é simples e cruel. Taiwan, uma província rebelde da China, virou o coração industrial dos chips mais avançados. E não existe plano B em escala. O Conselho de Relações Exteriores (CFR) resume o tamanho do risco: a ilha concentra mais de 60% da produção global de semicondutores e mais de 90% dos chips mais avançados.

O problema deixou de ser só geopolítica e virou macroeconomia. Em Davos, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, falou em “apocalipse econômico” se Taiwan for bloqueada, ao citar que 97% dos chips de ponta estariam concentrados na ilha, número acima de algumas estimativas do mercado, mas útil para entender o pânico em Washington.

Nos bastidores, dois governos tentaram mexer na engrenagem. Joe Biden empurrou dinheiro público para trazer fábricas de volta aos EUA. Trump, agora, acena com tarifa e renegociação de incentivos do CHIPS and Science Act, a lei que separou US$ 52,7 bilhões [cerca de R$ 273 bilhões] para turbinar a produção doméstica e reduzir a dependência asiática.

Só que a indústria resiste. O motivo é dinheiro, risco e eficiência. Fazer chip avançado exige escala, engenheiros, cadeia de insumos, energia barata, logística de materiais ultra sensíveis, e uma teia de fornecedores que Taiwan construiu por décadas. A conta não fecha rápido no Arizona, no Texas ou em qualquer outro lugar, e o mercado não costuma esperar “patriotismo industrial” quando o balanço cobra margem.

A tensão aumenta porque os exercícios militares chineses no entorno de Taiwan viraram rotina e, na leitura de autoridades americanas, o cenário de bloqueio é tão destrutivo quanto uma invasão. Um bloqueio já bastaria para travar exportações, elevar preços, cortar produção de eletrônicos, afetar automóveis e interromper data centers, justamente quando a corrida de IA depende de GPU e de infraestrutura.

Para o Brasil, o choque chega sem pedir licença. Faltar chip significa menos carro, menos eletrônico, mais custo de telecom, menos produtividade, e inflação importada em dólar. Também vira disputa política: soberania tecnológica passa a ser tratada como “segurança nacional”, e isso costuma justificar protecionismo, subsídio e guerra comercial, tudo o que encarece a vida nas periferias do mundo.

Nesse sentido, Washington está dizendo em voz alta aquilo que o mercado finge não ouvir: a globalização digital tem um calcanhar de Aquiles em Taiwan. Se o Vale do Silício continuar apostando que nada acontece, a conta, quando vier, não vai respeitar fronteiras, nem ideologia, nem narrativa.

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