O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse pela primeira vez que pode disputar a Presidência da República em 2030. Em entrevista publicada nesta quinta-feira, 29 de outubro, ele afirmou que terminar bem o segundo mandato “obviamente abre uma possibilidade” de disputar o Palácio do Planalto.
A declaração foi dada dias depois de Flávio Bolsonaro (PL) ser derrotado no segundo turno e deixar o país rumo aos Estados Unidos. Tarcísio reconheceu o resultado das eleições, gesto que passou a ser lido no meio político como sinal de disposição para disputar a sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Terminando bem o 2º mandato, obviamente abre uma possibilidade. Mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, não sozinho”, afirmou. Ele acrescentou que costuma levar “a questão espiritual” para as decisões e citou a “vontade do Senhor” como fator de seus projetos.
A fala tem consequência imediata na reorganização da direita. Com Flávio isolado, o PL dividido entre a bancada radical e a cúpula que reconheceu a vitória de Lula, e Jair Bolsonaro em prisão domiciliar, o governador paulista se apresenta como alternativa de poder com mandato, máquina e discurso fiscal.
Tarcísio também mirou o governo federal na economia. Criticou o que chamou de incoerência fiscal e alertou para o risco de recessão. Descreveu a política atual como uma contradição: o Banco Central (BC) tenta “tirar a água do barco” com juros altos, enquanto o governo federal “coloca água no barco gastando demais”.
Ele afirmou que a taxa de juros está “beirando os 15%, 13,75%, podendo aumentar” e projetou relação dívida/PIB de 120% a 130%. Defendeu uma “reforma total do orçamento”, com desvinculação de receitas, e disse que o orçamento discricionário já representa apenas 5% do total.
Sobre a desindexação das aposentadorias do reajuste do salário mínimo, respondeu que “é uma coisa para ser estudada”. A frase interessa ao eleitor: aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tiveram ganho real vinculado ao mínimo, e mexer nessa regra atinge diretamente a renda de quem ganha um salário.
O discurso combina duas frentes. Na política, Tarcísio se posiciona como o herdeiro de um campo que ficou sem dono depois da fuga de Flávio. Na economia, antecipa uma agenda de ajuste que o governo Lula rejeita e que o mercado cobra, com corte de despesas e desvinculação orçamentária.
Há limites para o projeto. O governador tem mandato até 2030, precisa entregar obras e não controla o PL, partido de Flávio e de Valdemar Costa Neto, que tem em seu plantel Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro. Também não é o único nome da direita: Ratinho Junior (PSD), governador do Paraná, Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, circulam no mesmo espaço.
O movimento de Tarcísio não resolve a disputa interna da direita. A entrevista foi publicada no mesmo dia em que Valdemar Costa Neto reprovou a carta de Flávio, sinal de que a reorganização do campo bolsonarista passa por uma queda de braço entre o PL, governadores e ex-governadores e a bancada radical.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




