Na manhã de 30 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o programa “Agora Tem Especialistas”, que pretende ampliar o acesso da população a consultas com médicos especialistas. O Blog do Esmael acompanhou o ato diretamente do hospital Erasto Gaertner, referência em oncologia no Paraná. A proposta emociona, sensibiliza — mas também exige vigilância crítica.
Lula resgatou com força sua trajetória de operário e paciente do sistema público, lembrando episódios pessoais e apelando à empatia como fio condutor da política de saúde. No entanto, ao sugerir a criação de um “plano de saúde mais barato” com incentivo do governo, o presidente tocou numa ferida sensível: o risco real de canibalização do SUS, o maior e mais robusto sistema público de saúde do mundo.
Se o governo criasse um plano de saúde popular para 50 milhões de pessoas a R$ 100 por mês, isso geraria um mercado anual de R$ 60 bilhões — ou seja, quase 25% do orçamento total do SUS.
Essa conta expõe o risco: parte do financiamento público poderia migrar para subsidiar o setor privado, enfraquecendo o SUS — que atende quase 80% da população brasileira de forma gratuita e universal.
Ainda que a intenção seja garantir acesso a máquinas e exames de ponta para a população mais pobre, o modelo de “plano acessível” fora do SUS abre precedente para uma lógica de mercado dentro da política pública. Não se trata de elitismo técnico, mas de um alerta institucional. Quando o Estado começa a subsidiar planos de saúde populares — ainda que bem-intencionados — ele pode enfraquecer a base do próprio SUS, retirando recursos, priorizando parcerias privadas e naturalizando o duplo padrão: um sistema público precário para uns, e um sistema “alternativo” para os que puderem pagar.
Essa fragmentação da política pública corrói o princípio da universalidade, pilar do SUS desde sua criação na Constituição de 1988. Em vez de duas portas de entrada — uma demorada e outra subsidiada — a resposta deve estar na qualificação do próprio SUS, com foco em gestão, ampliação de equipes, informatização e valorização dos profissionais da saúde.
O diagnóstico de Lula é justo: o gargalo está na segunda consulta, na espera por exames, na burocracia que maltrata o mais pobre. Mas a solução não é terceirizar o cuidado nem estimular paralelos ao sistema público. A saída está no fortalecimento do que já existe — e funciona — mesmo com todas as limitações. O Brasil não precisa reinventar a roda, precisa fazê-la girar melhor.
Ao fim do emocionante discurso, Lula celebrou o SUS como o melhor sistema de saúde pública do planeta. E ele tem razão. É justamente por isso que a proposta de criar um plano paralelo, ainda que mais barato, precisa ser repensada à luz da Constituição, da equidade e da justiça social.
Que o programa “Agora Tem Especialistas” não seja o início de uma privatização silenciosa, mas sim a reafirmação do SUS como patrimônio do povo brasileiro. Um sistema que, apesar de vilipendiado por décadas, segue firme, salvando vidas em cada canto do país — inclusive naquele hospital em Curitiba onde este blogueiro acompanhou tudo, olhos nos bastidores, coração no Brasil.
SUS: público, gratuito, universal. E insubstituível.
Aqui está a íntegra da fala do presidente Lula:
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




