Master chega à insulina do SUS

O caso Master chegou à insulina do Sistema Único de Saúde (SUS) neste domingo (24), depois que o Ministério da Saúde notificou a Biomm por atraso na entrega de medicamento usado por pacientes diabéticos da rede pública. O dado desloca a crise do banco liquidado da Faria Lima para a rotina de família que depende de frasco, caneta, receita médica e farmácia municipal.

Registros públicos da execução de um dos principais contratos de fornecimento de insulina ao SUS apontam pendência de mais de 1,57 milhão de doses, cerca de 19,6% do total contratado, restando um mês para o fim do acordo. O contrato tem valor de R$ 142,1 milhões e previa pouco mais de 8 milhões de doses.

O caminho do contrato passa pelo Ministério da Saúde, pela Fundação Ezequiel Dias (Funed), laboratório público de Minas Gerais, e pela Biomm, parceira privada em uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) com a indiana Wockhardt. O ponto essencial é que esse contrato trata de insulina humana regular e NPH, não da glargina anunciada pelo governo para a transição gradual no SUS.

A diferença importa porque a política de diabetes do SUS opera em duas frentes. A primeira é manter o abastecimento da insulina já usada por milhões de pacientes. A segunda é ampliar, aos poucos, o acesso à insulina glargina, de ação prolongada, que começou em projeto-piloto no Amapá, Paraná, Paraíba e Distrito Federal.

Em fevereiro, o Ministério da Saúde informou que a transição da NPH para a glargina começaria nesses quatro locais, com prioridade para crianças e adolescentes de até 17 anos com diabetes tipo 1 e idosos de 80 anos ou mais com diabetes tipo 1 ou 2. A estimativa oficial era atender mais de 50 mil pessoas na primeira fase.

É aí que o Paraná entra de forma concreta. O estado está no piloto da glargina, enquanto a notícia sobre atraso em outro contrato de insulina mostra a fragilidade de uma cadeia que depende de contrato público, empresa privada, importação, liberação regulatória e distribuição aos estados. Para o paciente, a distinção técnica entre NPH, regular e glargina não apaga a pergunta simples: vai ter insulina na unidade de saúde?

A Biomm confirmou alteração no cronograma, mas afirmou que os contratos estão “substancialmente atendidos”. Segundo a empresa, restariam 445.168 carpules, equivalentes a 3% do volume contratado, com produtos prontos e aguardando faturamento e liberações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O Ministério da Saúde disse que não há atraso na distribuição de insulina ao SUS e que mantém envios regulares aos estados. A pasta também informou que acompanha os contratos e notifica empresas em caso de descumprimento de cronograma. No caso da Funed, declarou execução de 85,7% das entregas.

O ruído está justamente na distância entre as versões. A apuração aponta uma pendência calculada em 1,57 milhão de doses. A empresa fala em 445 mil carpules restantes. O governo nega falta na ponta. A conta precisa ser aberta por contrato, nota fiscal, cronograma, produto, unidade de medida, lote, estado atendido e prazo de liberação sanitária.

A Biomm ganhou centralidade no noticiário porque tinha entre seus principais acionistas o Fundo Cartago, ligado ao Banco Master. Reportagem do NeoFeed informou que o fundo detinha 25,86% da empresa e seria incluído na lista de ativos a serem vendidos após a liquidação do banco.

O Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, citando grave crise de liquidez do conglomerado e comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira. Esse é o fato financeiro de origem. Não há, até aqui, prova pública de que a liquidação do Master tenha causado o atraso da insulina.

Mesmo assim, o dano político é evidente. O caso Master já atingiu a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), depois que o senador confirmou encontro com Daniel Vorcaro para tratar do encerramento de conversas sobre financiamento de filme sobre Jair Bolsonaro. O Blog do Esmael também registrou que o desgaste entrou no ambiente da disputa presidencial de 2026.

Agora, a crise muda de endereço político. Sai do CDB, do fundo de investimento e do contrato bilionário. Chega ao balcão da farmácia pública, onde a família não discute liquidação bancária, mas geladeira, dose, receita e risco de descompensação do diabetes.

O Ministério da Saúde precisa mostrar a planilha completa: quanto foi comprado, quanto foi entregue, quanto falta, quais estados dependem de cada lote, quais produtos foram afetados e se o Paraná corre algum risco direto ou indireto. Sem isso, o BolsoMaster deixa de ser apenas caso de mercado e vira uma pergunta de saúde pública.

O governo Lula tem a seu favor o discurso da retomada da produção nacional de insulina e da ampliação da glargina no SUS. Tem contra si a obrigação de provar, com número aberto e entrega na ponta, que contrato contaminado por crise societária não vira falta de remédio.

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