Cada ponto percentual da Selic custa cerca de R$ 55 bilhões por ano ao Tesouro Nacional. É dinheiro público suficiente para financiar políticas estruturantes de saúde, educação e habitação, mas que termina entesourado pelos oligarcas do sistema financeiro. Em termos práticos, cada ponto de juros equivale a um escândalo do Banco Master pago anualmente pela sociedade.
Com a Selic em 15% ao ano, o Brasil convive, na prática, com quinze “Bancos Master” drenando o orçamento público todos os anos. Cada ponto percentual representa cerca de R$ 55 bilhões pagos em juros, dinheiro que sai do bolso do contribuinte, meu, teu, nosso, e vai direto para os oligarcas do sistema financeiro.
A conta não é retórica. Trata-se de uma estimativa recorrente citada por autoridades e instituições financeiras, que varia conforme o estoque e a composição da dívida. Ainda assim, o número serve como régua política para medir o impacto real da taxa básica sobre o orçamento federal.
Com a Selic em 15%, o Brasil opera com um dos juros reais mais altos do planeta. O resultado é uma transferência contínua de renda do conjunto da população para quem detém títulos da dívida pública, majoritariamente bancos, fundos e grandes investidores.
Quase metade da dívida pública federal está atrelada diretamente à Selic. Outra fatia relevante acompanha a inflação. Quando a taxa básica sobe, o custo do serviço da dívida aumenta de forma quase automática, independentemente do esforço fiscal do governo no gasto primário.
Foi exatamente isso que ocorreu no último ano. A dívida pública federal saltou 18% e alcançou R$ 8,6 trilhões, a maior alta desde 2015, superando até o avanço registrado no auge da pandemia. Segundo o próprio Tesouro Nacional, o principal motor dessa escalada foi a apropriação de juros, e não o aumento de despesas sociais.
O dado desmonta a narrativa de que o problema central está nos gastos com políticas públicas. O peso está no custo financeiro imposto por uma política monetária que mantém a economia sob compressão prolongada.
Quando R$ 55 bilhões são drenados por um único ponto da Selic, o impacto não aparece em uma linha específica do orçamento voltada à saúde ou à educação. Ele surge como ausência. Falta recurso para ampliar hospitais, financiar universidades, construir moradias populares ou investir em infraestrutura.
Esse esvaziamento da capacidade do Estado é apresentado como efeito colateral inevitável do combate à inflação. Mas o remédio virou rotina, mesmo quando os índices de preços mostram arrefecimento e a atividade econômica desacelera.
O Banco Central sustenta que a estratégia é necessária para ancorar expectativas. O problema é que, enquanto as expectativas são preservadas, o custo social é imediato e concentrado.
Além do rombo fiscal, os juros elevados encarecem o crédito, inibem o investimento produtivo e freiam o consumo das famílias. O país cresce menos, arrecada menos e, paradoxalmente, vê a dívida crescer mais, justamente pelo peso dos juros.
É um ciclo que se retroalimenta. Juros altos aumentam a dívida. Dívida maior reforça o discurso por juros altos. No meio, o orçamento público vira refém de uma engrenagem financeira que opera com baixa transparência política.
Nesse cenário, o Brasil passa a funcionar para remunerar juros de uma dívida pública que nunca foi submetida a uma auditoria ampla, como determina a Constituição. Trata-se de uma forma contemporânea de servidão econômica, na qual o sistema financeiro concentra renda e poder, amparado por interesses cruzados com a velha mídia corporativa.
A Selic não é neutra. Ela beneficia quem vive de renda financeira e penaliza quem depende de serviços públicos e de crédito para produzir e consumir. Cada ponto percentual não é apenas um número técnico, é uma decisão distributiva.
Enquanto o país debate escândalos bancários pontuais, um escândalo estrutural se repete como se fosse normal a cada reunião do Copom, com impacto bilionário e permanente.
A manutenção da Selic em patamares estratosféricos desloca o debate econômico do campo democrático para o tecnocrático. Ao transformar juros em dogma, o sistema financeiro blinda uma das maiores transferências de renda da história recente.
Romper esse ciclo exige mais do que cortes graduais. Exige recolocar o custo social dos juros no centro do debate público e político.
Porque cada ponto da Selic não é abstração. São R$ 55 bilhões que deixam de chegar onde o Brasil mais precisa.
Continue acompanhando os bastidores da política econômica e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




