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Banco Central mantém Selic em 15% e ensaia recuo em março

A Selic foi mantida em 15% ao ano pelo Banco Central, mas o Copom deixou explícito que o ciclo de cortes pode começar em março, caso a inflação siga convergindo para a meta e o cenário permaneça estável. A decisão, unânime, prolonga o período de juros no nível mais alto desde julho de 2006 e reforça o paradoxo da política monetária brasileira: a inflação arrefece, mas o freio segue pisado.

O comunicado divulgado após a reunião de quarta-feira (28) confirma a quinta manutenção consecutiva da taxa básica. O colegiado afirma que a estratégia “tem se mostrado adequada”, mas admite que, em ambiente de inflação menor e com maior transmissão dos juros à economia, será necessária calibração do nível atual.

Nos bastidores, a sinalização foi lida como um gesto de acomodação tardia a dados que já apontam desaceleração da atividade e perda de fôlego do consumo.

A taxa está em 15% desde meados do segundo semestre passado, após um ciclo de aperto que elevou os juros em 4,5 pontos percentuais. O efeito colateral é conhecido. Crédito caro, investimento travado e crescimento contido, sobretudo fora do circuito financeiro.

Mesmo assim, o Brasil segue no topo do ranking global. Com juros reais em torno de 9,2%, o país ocupa a segunda posição mundial, atrás apenas da Rússia, segundo levantamento dos oligarcas da Faria Lima. É um dado que expõe o custo social da opção conservadora do Banco Central, isto é, dos banqueiros, que controlam a instituição desde que ela se tornou “independente”.

O Copom reconhece que a inflação cheia e os núcleos vêm desacelerando, mas insiste que as expectativas seguem acima da meta. O boletim Focus projeta IPCA de 4% em 2026 e 3,8% em 2027, enquanto a meta central é de 3%. Esse descompasso sustenta o discurso da cautela.

Há também o fator institucional. A reunião ocorreu com apenas sete integrantes, devido ao atraso do governo na indicação de dois diretores que deixaram o BC no fim de 2025. Embora o quórum reduzido não tenha afetado o resultado, o vazio reforça a leitura de um Banco Central operando no limite político e administrativo.

Do lado externo, o comitê voltou a citar incertezas globais, em especial a política econômica dos Estados Unidos. No mesmo dia, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,5% e 3,75%, apesar da pressão direta do presidente Donald Trump. A diferença entre as taxas ajuda a explicar o diferencial exagerado mantido no Brasil.

A crítica recorrente de setores produtivos permanece. Juros nesse patamar são vistos como um obstáculo estrutural ao desenvolvimento, à geração de empregos e à reindustrialização. No governo Lula, a avaliação é de que o BC reage mais ao medo de expectativas desancoradas do que aos dados efetivos da economia real.

Ao sinalizar um possível corte em março, o Copom tenta equilibrar a narrativa. Não se compromete com ritmo nem magnitude, mas admite que o atual patamar não é sustentável por muito mais tempo sem custos crescentes.

Se o corte vier em março, será mais do que um ajuste técnico. Será o reconhecimento de que a política monetária apertou além do necessário e de que manter a Selic em 15% virou risco, não proteção. Caso contrário, o país seguirá pagando um pedágio elevado para satisfazer um modelo que privilegia a estabilidade financeira dos mais ricos, mas sacrifica crescimento e emprego.

Os banqueiros já precificam o início do ciclo de queda. Falta o Banco Central transformar o ensaio em decisão concreta a favor da economia e dos brasileiros.

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