Portugal retorna às urnas neste domingo (18) pela terceira vez em apenas três anos para escolher um novo Parlamento. A crise de governabilidade que se arrasta desde 2022, somada à fragmentação do cenário partidário, alimenta o cansaço do eleitorado e abre espaço para o crescimento da extrema-direita.
A expectativa é que a coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD), liderada por Luís Montenegro, atual primeiro-ministro e presidente do PSD (Partido Social Democrata), amplie sua presença na Assembleia da República, mas sem alcançar a maioria absoluta de 116 cadeiras, entre os 230 assentos em disputa.
Montenegro, que perdeu uma moção de confiança em março após denúncias de conflito de interesses envolvendo uma empresa ligada à sua família, conduziu a campanha tentando resgatar a confiança popular. Apelou neste domingo à “responsabilidade” dos eleitores e à participação massiva, temendo uma taxa de abstenção ainda maior que os 40% registrados em 2024.
Do lado oposto, o Partido Socialista (PS) aposta em Pedro Nuno Santos como o nome da esquerda para liderar o próximo governo. O ex-ministro e novo secretário-geral do PS votou em Lisboa e também reforçou o chamado ao voto, em meio ao risco de desmobilização de sua base histórica.
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Com cerca de 18% das intenções de voto segundo as últimas sondagens, o partido Chega, de André Ventura, surge como um fator imprevisível. Apesar de estar em terceiro lugar, o partido de extrema-direita pode assumir papel de “fiador” de um governo minoritário da AD — mesmo com Montenegro insistindo em recusar qualquer aliança formal com os ultraconservadores.
Ventura, que enfrentou problemas de saúde nas últimas semanas, surpreendeu ao comparecer ao último comício de sua legenda na sexta-feira. Prometeu endurecer o discurso contra a imigração irregular e disse querer “limpar Portugal”, numa retórica que ressoa com parte significativa do eleitorado descontente.
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Riscos para brasileiros que vivem em Portugal
O avanço da extrema-direita em Portugal, representada principalmente pelo partido Chega de André Ventura, tem implicações diretas e preocupantes para os imigrantes brasileiros — hoje uma das maiores comunidades estrangeiras no país.
Embora nem todas as propostas tenham sido formalizadas em políticas públicas, o discurso do partido é marcadamente xenófobo, seletivo e excludente, com foco em endurecer o acesso à cidadania, restringir políticas de regularização e criminalizar a imigração sob o pretexto da “ordem e segurança pública”.
Nos últimos meses, o próprio Ventura defendeu a expulsão de imigrantes irregulares, o corte de benefícios sociais para estrangeiros e o aumento de exigências para a permanência legal — inclusive com barreiras linguísticas, econômicas e culturais. Na prática, isso poderia significar mais dificuldades para a regularização de vistos, reagrupamento familiar e acesso a serviços públicos como saúde, educação e moradia.
Além disso, o crescimento do Chega legitima uma retórica de exclusão, alimentando episódios de discriminação, racismo e perseguição institucional, principalmente contra brasileiros de origem mais humilde, negra ou nordestina — frequentemente associados a estigmas em discursos públicos.
Para a comunidade brasileira em Portugal, o avanço da extrema-direita não é apenas uma ameaça simbólica: é um risco real à dignidade, aos direitos adquiridos e à permanência segura no país. E o que está em jogo nas urnas vai além de um partido: trata-se de defender a convivência democrática e o pacto de acolhimento que historicamente uniu os dois países.
Crise democrática e fadiga eleitoral
Em uma década, Portugal realizou nove eleições nacionais — o segundo maior número da União Europeia, atrás apenas da Bulgária. Segundo cientistas políticos portugueses, essa instabilidade constante alimenta o descrédito nas instituições e pode acelerar o esvaziamento do voto como instrumento de transformação.
A participação, até o meio-dia, era de apenas 25,56%, número levemente acima do registrado no mesmo horário nas eleições de 2024. Mais de 10,8 milhões de eleitores foram convocados para este pleito, incluindo os que votam do exterior.
Todos os principais líderes partidários já votaram e apelaram à participação cívica, numa tentativa de frear o avanço da abstenção, que ameaça bater recordes. As projeções oficiais de boca de urna serão divulgadas às 20h (hora de Lisboa), quando se terá o primeiro retrato do novo Parlamento — ou do novo impasse.
Projeções e bastidores
Mesmo com o favoritismo da coligação de Montenegro, o cenário mais provável, segundo analistas, é de um novo Parlamento sem maioria definida — o chamado “hung parliament” — o que obrigará negociações delicadas e possíveis acordos entre adversários. Uma repetição da fórmula que tem emperrado o avanço de reformas econômicas, sociais e institucionais no país.
As urnas fecharão às 19h (horário local) e os primeiros resultados devem ser divulgados nas próximas horas. O desfecho poderá indicar não apenas quem governará Portugal, mas também se o país caminha para uma consolidação autoritária ou uma reconfiguração democrática diante da crise.
Impasse Além-Mar
Portugal vive um impasse prolongado, que reflete a desilusão com a política tradicional e o avanço de discursos extremistas. O voto deste domingo é menos sobre quem governa e mais sobre como — e com quem — se pretende governar. O resultado poderá redesenhar a democracia portuguesa ou acentuar a paralisia institucional.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




