O Estreito de Ormuz segue travado na sexta-feira (10), na véspera da primeira rodada de conversas entre Estados Unidos e Irã em Islamabad. A Reuters informou que não havia sinal de Teerã suspendendo o bloqueio quase total da rota, e o fluxo marítimo seguia em menos de 10% do padrão histórico, justamente no corredor por onde passava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes da guerra.
É por isso que Ormuz organiza o resto do noticiário. A trégua de duas semanas derrubou os contratos futuros ao longo da semana, mas não normalizou o sistema real de energia: na manhã de hoje, o Brent subia a US$ 96,48 e o WTI a US$ 98,52, enquanto a Reuters registrava que o mercado físico seguia apertado e que o tráfego pelo estreito continuava perto da paralisação.
O retrato da crise piora porque o estrangulamento de Ormuz já se combina com danos em outras rotas. A Arábia Saudita informou que ataques reduziram sua capacidade de produção em cerca de 600 mil barris por dia e cortaram em 700 mil barris por dia o fluxo do oleoduto East-West, a saída alternativa usada enquanto o estreito permanece bloqueado.
Na frente política, o Líbano tenta abrir uma via própria para conter a escalada. Um alto funcionário libanês disse à Reuters que Beirute passou as últimas 24 horas buscando um cessar-fogo temporário, em trilha separada, para permitir negociações mais amplas com Israel, com mediação e garantia dos Estados Unidos.
Do lado israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou na quinta-feira (9) que quer iniciar negociações diretas com o Líbano “o mais rápido possível”, com foco no desarmamento do Hezbollah e em relações pacíficas. A resposta veio na mesma linha do impasse: o deputado Ali Fayyad, do Hezbollah, rejeitou negociação direta e exigiu cessar-fogo prévio, retirada de tropas israelenses do território libanês e retorno dos deslocados.
A contradição que mantém a trégua vacilante está posta. Enquanto Islamabad preparava a primeira rodada de conversas entre Washington e Teerã, Israel seguia trocando fogo com o Hezbollah, e a própria Reuters registrou que, nas primeiras 24 horas do cessar-fogo, apenas um navio-tanque de derivados e cinco graneleiros secos cruzaram Ormuz, contra uma rotina anterior de cerca de 140 embarcações por dia.
Para o leitor brasileiro, a tradução é direta. Petróleo perto de US$ 100, oferta física apertada e frete marítimo desorganizado mantêm pressão sobre diesel, transporte e inflação.
Enquanto Ormuz não reabrir de fato, a paz seguirá valendo menos pelo discurso diplomático do que pela quantidade de navios que conseguir sair do Golfo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




