O ajuste fiscal de Javier Milei, apresentado por integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) como referência para cortar despesas públicas, reduziu em 53% o número de novos aposentados na Argentina entre o primeiro semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2026. O dado coloca uma consequência concreta do chamado “modelo Milei” no centro do segundo turno brasileiro.
Segundo dados dos Boletins Estatísticos da Previdência Social argentinos compilados e checados pelo Blog do Esmael, o número de pessoas que ingressaram na aposentadoria caiu de 213,9 mil no primeiro semestre de 2024 para 99,6 mil no mesmo período de 2026.
A principal mudança foi o fim da moratória previdenciária, mecanismo que permitia a trabalhadores em idade de aposentadoria regularizar períodos em que não haviam completado os 30 anos exigidos de contribuição.
Milei também alterou a fórmula de reajuste das aposentadorias em março de 2024. Os benefícios passaram a ser atualizados mensalmente pela inflação oficial, substituindo a fórmula anterior, que combinava evolução dos salários e arrecadação previdenciária.
Cálculo do Centro de Economia Política Argentina apontou que, em junho de 2026, o piso mínimo estava 21,6% abaixo do valor que teria alcançado se a fórmula anterior tivesse sido mantida.
A relação com a eleição brasileira exige cuidado. Esses resultados ocorreram na Argentina e não demonstram que Flávio Bolsonaro adotará as mesmas medidas caso seja eleito.
O fato político é outro: Daniella Marques, coordenadora da equipe econômica da campanha do candidato do PL, já apresentou o governo Milei como inspiração para o ajuste fiscal pretendido no Brasil. Flávio também promete um corte expressivo de despesas, embora negue que pretenda reduzir aposentadorias ou programas sociais.
O Blog do Esmael mostrou que o programa de Flávio ainda não detalha como toda a economia prometida será obtida. A comparação argentina torna mais objetiva a cobrança: quais partes do ajuste de Milei servem de referência e quais estão descartadas?
No Brasil, aposentadorias vinculadas ao salário mínimo seguem a política de reajuste que incorpora ganho real limitado a 2,5% acima da inflação, conforme as regras vigentes. Alterar essa vinculação ou a fórmula de correção exigiria decisão política e mudança normativa.
A campanha de Lula (PT) explora justamente essa zona de incerteza para pressionar Flávio a apresentar números, medidas e áreas efetivamente atingidas pelo “tesouraço”. A campanha do PL, por sua vez, afirma que programas sociais e aposentadorias não serão alvo do corte.
O conflito, portanto, não é sobre uma medida já anunciada para aposentados brasileiros. É sobre a coerência entre usar Milei como exemplo e explicar quais consequências desse modelo seriam ou não reproduzidas no Brasil.
O Blog do Esmael seguirá confrontando as promessas econômicas dos candidatos com números, regras e consequências verificáveis.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




