O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a entrevista ao ICL Notícias para abrir, de uma vez, a vitrine política de 2026: pôs a defesa da democracia no centro da disputa, prometeu enviar ao Congresso o projeto contra a escala 6×1, defendeu o fechamento das bets, cobrou transparência no Caso Master e disse que o Planalto não deixará a guerra no Oriente Médio bater no prato do brasileiro.
Na conversa com Eduardo Moreira e Leandro Demori, no Palácio do Planalto, Lula afirmou que a eleição de 2026 terá como eixo a defesa das instituições, da verdade e das urnas eletrônicas. Disse ainda que democracia, para ele, não se resume ao voto, mas ao direito concreto de trabalhar, comer e viver melhor. E fez um gesto político calculado: declarou que, se não vencer a disputa, passará a faixa a quem for eleito.
Foi nesse ponto que o presidente ligou discurso institucional a agenda social. Lula voltou a defender o fim da escala 6×1, afirmou que o governo enviará um projeto de lei nos próximos dias e sustentou que a redução da jornada não pode vir acompanhada de corte salarial. Segundo ele, o avanço tecnológico precisa ser convertido em produtividade a favor do trabalhador, com margem de negociação para categorias específicas.
Lula também tratou a entrevista como balanço de governo e prévia de campanha. Repetiu que recebeu o país em cenário de “terra arrasada”, citou a retomada de obras paradas, a entrega de unidades do Minha Casa Minha Vida que estavam travadas e a expansão dos institutos federais. A partir daí, vendeu 2026 como “ano da colheita” e voltou a associar um eventual quarto mandato à ideia de “salto de qualidade”.
Na segurança pública, Lula empurrou outra peça central de sua agenda. Disse que quer aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança para ampliar o papel da União, criar um Ministério da Segurança Pública e estruturar uma Guarda Nacional voltada a intervenções rápidas em situações graves. O presidente também citou o caso Marielle Franco para defender maior autonomia federal no combate ao crime organizado.
A entrevista teve ainda um forte recorte de economia popular. Lula afirmou que o governo trabalha numa nova saída para reduzir o endividamento das famílias e tratou as bets como problema social e de saúde pública. Disse que, pessoalmente, fecharia as plataformas de apostas, embora reconheça que isso depende do Congresso Nacional. A fala ganhou repercussão imediata fora do Brasil e recolocou o tema no centro da agenda econômica e moral do governo.
No mesmo pacote, Lula atacou o arranjo político que sustenta parte do Congresso. Criticou o fundo eleitoral, condenou o orçamento secreto e falou em “penduricalhos” e “promiscuidade política”, num recado que atinge a engrenagem de partidos e caciques parlamentares. É um discurso que agrada a base social do petismo, mas compra briga direta com o sistema de poder que também garante governabilidade em Brasília.
Ao entrar no Caso Master, Lula mexeu num terreno ainda mais sensível. Disse que o episódio prejudica a imagem do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou ter aconselhado Alexandre de Moraes a se declarar impedido e defendeu uma explicação pública convincente. O petista também alertou que a extrema direita explorará o caso na campanha, o que mostra que o Planalto já enxerga o tema como risco institucional e eleitoral.
Em política externa e soberania, o presidente subiu o tom. Criticou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) por movimentos ligados às terras-raras e disse que o Brasil não pode entregar minerais estratégicos aos Estados Unidos. No mesmo bloco, atacou Donald Trump, afirmou que o país precisa fortalecer sua indústria de defesa e reforçou que o Brasil quer respeito nas relações internacionais, não tutela externa.
Lula ainda conectou a guerra no Oriente Médio ao bolso do eleitor. Disse que o governo não permitirá que o conflito entre Estados Unidos e Irã encareça feijão, arroz, alface e cebola no Brasil, e voltou a relacionar o esforço contra o endividamento às medidas já adotadas para amortecer os combustíveis. Na entrevista, citou até a intenção de recomprar a refinaria de Mataripe, na Bahia, privatizada no governo anterior.
Houve ainda espaço para um tema que costuma ficar fora do radar da cobertura econômica e institucional: o feminicídio. Lula chamou a violência contra as mulheres de chaga nacional, defendeu educação dos homens desde cedo e associou a autonomia feminina ao acesso ao trabalho e à renda. É uma frente que o Planalto tenta manter viva no debate público em meio à pressão da segurança e do custo de vida.
A repercussão mais imediata veio da Câmara. Depois de Lula anunciar o envio do projeto da jornada de trabalho, Hugo Motta (Republicanos-PB) informou que manterá o cronograma da PEC sobre o mesmo tema. Traduzindo: o presidente abriu uma agenda ampla na entrevista, mas continua dependente de um Congresso que não pretende largar o osso nem entregar protagonismo de graça ao Planalto.
No conjunto, Lula transformou a entrevista ao ICL numa peça de campanha em forma de conversa. Misturou democracia, trabalho, soberania, segurança, bets, STF, orçamento e guerra. O desafio agora é outro: tirar do estúdio o que promete no discurso e atravessar, sem tropeço, o funil do Congresso, dos oligarcas do mercado financeiro e da própria crise institucional que ronda Brasília.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




