O presidente estadual da Democracia Cristã (DC) no Paraná, Ricardo Gomyde, voltou à carga contra um levantamento eleitoral no estado e disse haver “inconsistências” na metodologia. Desta vez, a ofensiva mirou a pesquisa PR-02424/2026, do Instituto Verita, cuja divulgação estava prevista para sábado (28). Em decisão liminar, a Justiça Eleitoral suspendeu a publicação do levantamento até nova deliberação.
A decisão da juíza auxiliar Gisele Lemke acolheu parcialmente a representação apresentada pela direção estadual da DC. No despacho, a magistrada apontou, em análise inicial, uma divergência central entre o que foi registrado no sistema PesqEle e o que aparecia no questionário aplicado: o registro mencionava apenas os cargos de senador, deputado federal e deputado estadual, mas o formulário trazia uma bateria de perguntas sobre a disputa para governador.
O despacho também cita outros problemas levantados na ação, entre eles a falta de clareza sobre as fontes públicas dos dados usados no plano amostral e a indicação de Rafael Greca com filiação partidária desatualizada, ainda no PSD, embora ele já tivesse migrado para o MDB. Com isso, a magistrada determinou a suspensão da divulgação da pesquisa, sob pena de multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento.
Na prática, Gomyde transformou a impugnação de pesquisas num novo flanco da pré-campanha paranaense. O argumento político dele é que há falhas suficientes para comprometer a confiabilidade dos levantamentos. Já no plano judicial, o que pesou na liminar desta semana não foi uma condenação ampla da metodologia em si, mas a desconformidade entre o registro oficial e o questionário, além de inconsistências documentais apontadas na representação.
Não foi um movimento isolado. Dias antes, a própria DC já havia conseguido outra liminar contra a pesquisa PR-01340/2026, da Neobe Gestão e Serviços Ltda., também chamada Neokemp Pesquisas, contratada pelo União Brasil do Paraná. Naquele caso, a juíza auxiliar Adriana de Lourdes Simette suspendeu a divulgação por entender que o registro não atendia plenamente às novas exigências do artigo 2º, inciso IX, da Resolução TSE nº 23.600/2019, especialmente quanto à declaração da profissional de estatística responsável.
Essa decisão anterior ajuda a entender o roteiro que Gomyde vem adotando. Ele tem atacado os levantamentos não apenas no discurso, mas no detalhe técnico do registro, mirando assinatura de responsável, documentação auditável, desenho do questionário e aderência às exigências formais da Justiça Eleitoral. No caso da pesquisa anterior, o TRE-PR rejeitou, em liminar, a tese de ausência de links das bases de dados, mas manteve a suspensão por vício formal considerado suficiente para barrar a divulgação.
O ponto político é outro. Ao judicializar sucessivamente os levantamentos, Gomyde tenta se projetar como fiscal das pesquisas num momento em que a corrida de 2026 no Paraná ainda está em formação, com partidos trocando peças, pré-candidaturas em aberto e muito interesse em moldar a percepção do eleitor antes da largada oficial.
As duas decisões são liminares e ainda não encerram o mérito das representações. Tanto no caso do Verita quanto no da Neokemp, as empresas foram citadas para apresentar defesa, e os processos seguem para análise posterior com manifestação da Procuradoria Regional Eleitoral.
A essa altura, Gomyde já encontrou um nicho para chamar atenção no debate paranaense: o de contestador profissional das pesquisas. Resta saber se esse papel renderá dividendos eleitorais ou apenas barulho de pré-campanha.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




