O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deixou o hospital DF Star, em Brasília, na manhã desta sexta-feira (27) e passou a cumprir prisão domiciliar humanitária em sua residência no condomínio Solar de Brasília, no Jardim Botânico. Tornozeleira eletrônica no tornozelo, colete à prova de balas no peito e proibição total de usar redes sociais ou gravar qualquer tipo de conteúdo. Ele está em casa, mas o silêncio é obrigatório.
Bolsonaro chegou ao condomínio por volta das 10h20, sob forte esquema de segurança, com batedores da Polícia Militar do Distrito Federal bloqueando cruzamentos ao longo do trajeto. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro havia deixado o hospital pouco antes, em veículo próprio.
A decisão que autorizou a transferência foi assinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na terça-feira (24), por razões humanitárias ligadas ao estado de saúde do ex-presidente, que tem 71 anos e cumpre pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado e outros crimes correlatos.
O quadro que motivou a concessão foi uma broncopneumonia bacteriana severa, originada por broncoaspiração em 13 de março. Bolsonaro passou mais de uma semana na UTI, chegando a apresentar comprometimento nos dois pulmões. O tratamento com antibióticos terminou na quinta-feira (26). O boletim médico assinado pela equipe do DF Star apontava boa evolução clínica e ausência de sinais de infecção aguda.
As restrições impostas por Moraes são cirúrgicas. Bolsonaro está proibido de utilizar qualquer meio de comunicação, incluindo telefone, redes sociais ou produção de conteúdo audiovisual, ainda que por intermédio de terceiros. O descumprimento pode resultar na revogação do benefício e retorno imediato ao regime anterior.
Visitas também são controladas. Os filhos podem visitar o ex-presidente às quartas e sábados, entre 8h e 16h, nos mesmos horários da Papudinha. Os advogados têm 30 minutos por dia, com agendamento prévio junto ao 19º Batalhão da Polícia Militar do DF.
A prisão domiciliar será reavaliada ao fim dos 90 dias. O STF deverá analisar as condições de saúde e poderá determinar nova perícia médica antes de qualquer revisão do regime. Nos próximos meses, há previsão de uma artroscopia no ombro direito no final de abril, com protocolo de quatro semanas após a recuperação da pneumonia.
O cenário político que a domiciliar cria é mais complexo do que a imagem de um homem em casa sugere. Bolsonaro está fora das câmeras, sem linha direta com a militância, sem post, sem live. Nos bastidores, aliados avaliam que o isolamento deve ampliar o poder de Michelle Bolsonaro, que passa a concentrar o acesso cotidiano ao ex-presidente.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mantém agenda fora do país e, embora tenha autorização para visitar o pai, a rotina de viagens pode limitar sua presença física, fazendo com que sua atuação ocorra principalmente à distância. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), segue como principal nome eleitoral da direita, sem adversário à altura dentro do campo.
A chegada de Bolsonaro ao Jardim Botânico foi discreta. Diferentemente de outras ocasiões, não houve concentração significativa de apoiadores na entrada do condomínio. O silêncio do entorno já antecipa o que os próximos três meses vão ser: uma direita que tem o seu símbolo maior presente, mas inaudível.
A domiciliar não é indulto. A flexibilização do regime foi autorizada como cautela médica, não como revisão da pena. Bolsonaro continua condenado, com tornozeleira e sob monitoramento. A diferença é que o tablado mudou de cela para casa, e quem vai administrar o personagem, por ora, é Michelle.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




