A nova pesquisa Datafolha revela que a versão de Jair Bolsonaro (PL) sobre o surto que teria provocado o rompimento da tornozeleira eletrônica não convence a maioria dos brasileiros. Para 54% dos entrevistados, o ex-presidente tentava fugir quando acionou o alerta do equipamento, enquanto apenas 33% atribuem o episódio a um surto paranoico.
O levantamento ouviu 2.002 pessoas em 113 municípios entre 2 e 4 de dezembro e confirma a corrosão da narrativa construída pela defesa do político desde a madrugada de 22 de novembro.
O instituto também mediu a percepção sobre a pena de 27 anos e três meses. A prisão é considerada justa por 54% dos brasileiros, índice que reforça que a tentativa de violar a tornozeleira pesa mais na opinião pública do que os argumentos sobre problemas de saúde alegados pela defesa. Para 34%, Bolsonaro deveria cumprir a pena em casa, mas esse é um percentual inferior ao apoio ao presídio comum, com 26%, ou a uma unidade militar, com 20%.
A crença no surto se concentra no núcleo bolsonarista. Entre os que votaram no ex-presidente em 2022, 66% aceitam essa explicação. Entre evangélicos, o índice chega a 46%. No Sul e no Norte/Centro-Oeste, a tese alcança 40%. Já entre jovens de 16 a 24 anos cresce a percepção de fuga, chegando a 60%. Entre os mais ricos, a divisão entre surto e fuga é a mais equilibrada, mas ainda insuficiente para alterar a tendência nacional.
O episódio ocorreu às 0h07 de um sábado, quando a tornozeleira registrou violação. Bolsonaro alegou que havia batido o equipamento numa escada, mas, ao chegar à casa, agentes da Secretaria de Administração Penitenciária encontraram dano provocado por ferro de solda. A justificativa de “curiosidade” não convenceu o ministro Alexandre de Moraes (STF), que já suspeitava de risco de fuga, especialmente após Flávio Bolsonaro (PL-RJ) convocar uma vigília para a noite daquele dia em frente à residência do pai.
Moraes considerou plausível que a confusão servisse para retirar o ex-presidente de casa e levá-lo a uma embaixada de país simpático ao bolsonarismo, como EUA, Argentina ou Hungria. O episódio determinou a ordem de prisão preventiva e, depois, a manutenção de Bolsonaro na superintendência da Polícia Federal em Brasília após o trânsito em julgado.
A avaliação positiva da prisão atravessa quase todos os grupos sociais. No Nordeste, 65% consideram a medida justa. Entre eleitores do PT, o índice chega a 92%. Entre quem anulou ou votou em branco, 57% apoiam a decisão. No campo bolsonarista ocorre o inverso, com maior percepção de injustiça entre evangélicos, moradores do Norte/Centro-Oeste e eleitores do PL.
O Datafolha também avaliou a recepção à prisão de generais condenados no mesmo processo. Para 57%, as penas aplicadas aos oficiais foram justas. O Exército, contudo, sofre arranhão simbólico: 26% dizem ter piorado a visão sobre a Força, número relevante após anos de tutela militar sobre a política.
Os dados mostram que a sociedade já decodificou o episódio da tornozeleira como tentativa de fuga, e não como surto. A tentativa de consolidar a imagem de vítima encontra resistência na opinião pública. O episódio virou divisor de águas para o bolsonarismo, porque rompe a ideia de perseguição política e expõe o desgaste de uma liderança que tentou permanecer no poder por meios golpistas.
A disputa agora é sobre o futuro do bolsonarismo sem Bolsonaro. A prisão enfraquece o discurso de Flávio Bolsonaro como herdeiro político e reabre espaço para Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), preferido dos oligarcas do sistema financeiro e da velha mídia corporativa.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




