Quem está comemorando um século de existência é o jornal O Globo, fundado por Irineu Marinho em 1925. Mas o que se viu na série O Século do Globo, dirigida por Pedro Bial, foi uma tentativa descarada de transformar esse marco editorial num espetáculo de autocelebração da família Marinho, como se a trajetória do jornal, e por extensão da TV Globo (fundada em 1965), fosse sinônimo de democracia e compromisso com a verdade.
A produção, exibida na TV Globo e depois no Globoplay, serve como um monumento à distorção histórica. Ao invés de refletir, escancarar e assumir suas escolhas ao longo de 100 anos de poder midiático, o Grupo Globo preferiu torcer e distorcer os fatos, glorificar Roberto Marinho como um defensor das liberdades e fingir que não teve papel central nas páginas mais sombrias da história do Brasil.
O primeiro episódio já dava o tom: imagens em 4K, dramatizações com Tony Ramos e Eduardo Sterblitch, e uma cenografia pomposa. Mas, por trás da estética cinematográfica, o que se viu foi uma grotesca tentativa de reescrever o passado, com o brilho falso de um jornalismo que nunca teve o povo como prioridade.
Bial, que chá era aquele?

Cabe perguntar: que chá bebeu Pedro Bial? A narrativa conduzida por ele ignorou fatos cristalinos. A começar pela linha editorial histórica do jornal O Globo, que se notabilizou, desde meados do século XX, por atacar conquistas trabalhistas. Em 26 de abril de 1962, o jornal estampou em sua manchete: “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”. Mais de cinco décadas depois, em 2015, voltou a se alinhar com a atrasada oligarquia ao considerar “um avanço” o projeto de terceirização irrestrita, que fragiliza garantias da classe trabalhadora.
Durante a ditadura militar, o jornal, e mais tarde a emissora, tornaram-se pilares do golpe de 1964, usando páginas e câmeras como suporte ideológico do regime que mergulhou o país nas trevas por 21 anos.
Ao invés de reconhecer essa cumplicidade, a série ensaia um revisionismo constrangedor. O ponto alto (ou baixo) veio com o episódio sobre o debate entre Lula e Collor em 1989. Quem viveu aquele período sabe: a Globo editou o debate para favorecer Collor e manipulou a percepção da opinião pública. Na série, os filhos de Roberto Marinho afirmam que o patriarca “não tinha preferência”. Cinismo puro. Eu estive nas ruas, nas manifestações do Fora Collor, enquanto a emissora agia como assessora de imprensa do governo que cairia dois anos depois, sob denúncias de corrupção.
Houve ainda um disparate quando os filhos de Roberto Marinho tiveram a pachorra de insinuar que Leonel Brizola mantinha um acordo de “lacração” com a Globo. Segundo eles, os embates públicos eram encenação: um atacava o outro, mas tudo estaria combinado de antemão. Disseram, sem oferecer qualquer direito ao contraditório, que Brizola era presença frequente nos almoços com Marinho nos estúdios da emissora. Uma tentativa cínica de desmoralizar quem ousou enfrentar o monopólio midiático.
Privatizações, Lava Jato e o ataque à classe trabalhadora

O alinhamento com os interesses dos mais ricos nunca foi segredo. A Globo atuou ativamente em favor das privatizações nos anos 1990, ajudando a transformar estatais estratégicas em fonte de lucro para alguns oligarcas. Quando a operação Lava Jato surgiu, a emissora vestiu a camisa da cruzada moralista sem questionar métodos, ilegalidades ou arbitrariedades. A Globo sabia de tudo. E mesmo assim endossou os abusos de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e da República de Curitiba. A alegação, na série, de que “não havia como prever” é uma afronta à inteligência do público.
Desde 2014, o Blog do Esmael denuncia sistematicamente a aliança entre MPF, mídia e setores do Judiciário para sabotar governos populares, prender Lula e impor reformas como a trabalhista e a previdenciária, retrocessos históricos que retiraram direitos e precarizaram a vida de milhões de brasileiros.
O novo tempo de Bial: fake news em 4K
Ao tentar “limpar a barra” da Globo, Pedro Bial inaugura um novo tempo da pós-verdade institucionalizada. A série é um desfile de omissões, versões convenientes e apagamentos históricos. O uso da inteligência artificial, exaltado no episódio final, esconde a intenção de monopolizar o futuro da informação no país — agora sob a lógica dos algoritmos e do controle digital.
Mas o que mais choca é o desprezo com que a série trata os torturados, os mortos e os desaparecidos políticos. Ao evitar um pedido formal de desculpas, e ao se colocar como “vítima da história”, a Globo não apenas desrespeita o passado, mas ameaça o futuro democrático do país.
A luta contra a narrativa única

O Brasil vive um novo capítulo da luta contra a concentração da informação. E O Século do Globo deixa claro que o velho jornalão e a velha emissora querem continuar decidindo sozinhos o que o povo deve ver, pensar e esquecer. Mas há resistência. O jornalismo popular, as redes sociais e os veículos independentes como o Blog do Esmael seguem firmes em denunciar as contradições, os abusos e a narrativa única que ainda tenta se impor.
A memória dos que lutaram, e continuam lutando, não será apagada por nenhum especial em 4K. Contra o negacionismo chapa-branca, mais do que nunca, é preciso fortalecer a imprensa livre e crítica.
O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo.
Leia também no Blog do Esmael: Pedro Bial detona Bolsonaro na Globo: 'inominável', 'desgovernante' e 'acéfalo'; Ciro xinga Haddad: 'puxa-saco', 'poste', 'abraçador de bandido' e 'bajulador'; João de Deus afirma que é vítima de fake news da Globo

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




