O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), levou a Nova Délhi, na Índia, uma linha política para a inteligência artificial: inclusão social, soberania digital e desenvolvimento, com defesa de regras globais para evitar que a tecnologia vire ferramenta de dominação.
Nesta sexta-feira (20), no painel “IA para o bem de todos: perspectivas brasileiras sobre o futuro da IA”, seis ministros apresentaram o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, prometendo IA aplicada a saúde, educação, serviços públicos e infraestrutura, com investimento público projetado de R$ 23 bilhões até 2028.
A ministra Luciana Santos, da Ciência, Tecnologia e Inovação, tratou o PBIA como política de Estado e amarrou o conceito de soberania digital à capacidade de o Brasil entender, desenvolver e regular tecnologias críticas, além de formar e reter talentos em áreas como hardware e computação de alto desempenho.
A ministra Esther Dweck, da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, puxou a ideia de um governo mais “proativo”, usando linguagem natural em chatbots e assistentes, mas com ênfase no desenho responsável desde a origem para reduzir riscos e mau uso.
O ministro Frederico Siqueira, das Comunicações, apontou o gargalo físico por trás do hype: redes mais densas, mais capacidade de transmissão e mais data centers, num novo ciclo de investimentos para sustentar autonomia tecnológica sem deixar regiões para trás.
No MEC, Camilo Santana conectou IA e democracia pela porta da escola, alertando que, sem educação de qualidade e acesso, a tecnologia pode ampliar divisões em vez de reduzir desigualdades.
Na Saúde, Alexandre Padilha defendeu a IA “centrada no cuidado”, com ambição de cooperação no Sul Global e com o Sistema Único de Saúde (SUS) como escala para testar governança, segurança e soberania na saúde digital.
No fechamento do painel, o chanceler Mauro Vieira reforçou a tese geopolítica: IA é vetor de influência do século XXI, não é neutra, e precisa de governança global para não repetir velhos erros de concentração de poder, dados e infraestrutura.
O contexto da cúpula ajuda a entender o tom do Brasil. O governo indiano divulgou a construção de uma “Carta de Delhi” com mais de 70 países e expectativa de ultrapassar 80 assinaturas até sábado (21), além de prometer forte volume de compromissos em infraestrutura de IA.
E o alerta social veio também do debate internacional: a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, disse que a IA pode elevar o crescimento global em 0,8%, mas com risco alto de deslocamento de empregos, especialmente para funções de entrada e rotinas automatizáveis.
No balanço, o Brasil tenta ocupar um lugar que interessa ao Sul Global: não apenas consumir modelos prontos, mas disputar infraestrutura, dados, regras e direitos. Se essa conversa não virar entrega no cotidiano, vira discurso de salão. Se virar política pública mensurável, pode ser o embrião de uma soberania digital com justiça social. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




