Bolsonaro em casa enfraquece Flávio e reabre Tarcísio

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ganhou nesta terça-feira (24) prisão domiciliar temporária de 90 dias por decisão do ministro Alexandre de Moraes, após manifestação favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O gesto tem efeito humanitário, mas também vira a mesa da sucessão na direita: com Bolsonaro em casa, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) perde parte do discurso de urgência política que vinha carregando sua pré-candidatura, enquanto o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) volta a aparecer como alternativa real para 2026.

Flávio chegou até aqui com a bênção explícita do pai. Em dezembro, ele anunciou que havia sido escolhido por Jair Bolsonaro para representar o grupo e, dias depois, reafirmou que a decisão de disputar a Presidência era “irreversível”. O sobrenome, naquele momento, servia como cola da direita e como eixo de fidelidade do bolsonarismo mais duro.

Aliás, a domicilar para Bolsonaro tem mais ver com Michelle do que com Flavio Bolsonaro. Ela tem diferenças irreconciliáveis com os filhos do ex-presidente. Por isso a ex-primeira dama torce pelo governador de São Paulo como candidato ao Planalto.

Tarcísio, por sua vez, nunca esteve fora desse desenho. Em 27 de fevereiro, o governador paulista chamou Flávio de “futuro presidente da República” em ato público e acertou com ele a coordenação da campanha bolsonarista em São Paulo. Ou seja, o governador já está dentro do projeto, não como adversário, mas como peça central de sustentação.

Só que a cena mudou. Bolsonaro segue condenado, mas deixa de ser a imagem permanente do líder atrás das grades. Isso não apaga a narrativa de perseguição cultivada pelo clã, porém enfraquece seu motor visual e emocional. Flávio continua competitivo, só que a direita passou a olhar outra vez para a frieza dos números: pesquisa Datafolha indicou empate técnico de Lula com Flávio num eventual segundo turno, 46% a 43%, e também com Tarcísio, 45% a 42%. O bolsonarismo, portanto, já sabe que dispõe de duas rotas viáveis, não de uma só.

O relógio agora empurra essa dúvida para o centro da mesa. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministros, governadores e prefeitos que pretendam disputar outro cargo precisam deixar seus postos até 4 de abril. Senadores, ao contrário, não precisam renunciar. Para Flávio, o custo institucional de manter a candidatura é baixo. Para Tarcísio, entrar na corrida significa tomar uma decisão imediata e irreversível, abrindo mão do governo de São Paulo para tentar o Planalto.

Há um detalhe que pesa muito. Tarcísio só faz esse movimento se enxergar utilidade concreta. Hoje, ele aparece como favorito na disputa paulista contra Fernando Haddad (PT), segundo pesquisas sobre a corrida em São Paulo. Deixar o Palácio dos Bandeirantes para salvar uma candidatura alheia só faria sentido se o núcleo bolsonarista concluir que Flávio bateu no teto ou perdeu a vantagem que a prisão do pai lhe dava.

O ponto político é este: a domiciliar alivia Bolsonaro, mas complica a vida do herdeiro. A candidatura de Flávio nasceu da necessidade de manter o sobrenome no centro da disputa. Com Bolsonaro em casa, essa necessidade perde parte da pressão. Se a direita decidir agir com sangue-frio até 4 de abril, Tarcísio deixa de ser apenas fiador e volta a ser opção de cabeça de chapa.

Com o prazo de 4 de abril no horizonte, dez dias bastam para virar a conta da direita.

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PT chama Tarcísio de candidato do golpe em 2026. Imagem: reprodução/PT
Tarcísio volta à lembrança da direita, após domicilar para Bolsonaro. Imagem: reprodução/PT

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