Sem coordenação nacional, Nordeste se une para combater coronavírus

Publicado em 5 maio, 2020

O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), determinou nesta segunda-feira (4) medidas de restrição de circulação de veículos vindos de outros estados nas rodovias locais, para evitar o aumento do contágio local do novo coronavírus.

“O objetivo é evitar a ‘importação’ de vírus para o estado. Ou seja, chegou, pode ficar no Piauí, porém, isolado em sua residência, caso more aqui, ou em um local disponibilizado pelo estado para pessoas visitantes. E a partir daí tem todo um regramento como uso de máscaras e higienização”, explica, em entrevista a Marilu Cabañas e Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual desta terça-feira (5).

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Ele cita dados mostrando que, no estado, o nível de contágio de covid-19 é relativamente menor do que na maior parte do país. “Cada pessoa contaminada está transmitindo para aproximadamente 3 pessoas, um índice de reprodução muito elevado e, no Piauí, isso chega a 2,1. Nós queremos chegar à reprodução próxima de zero, que é quando se tem esse controle”, aponta.

As novas normas no transporte rodoviário foram anunciadas em uma conversa com transmissão ao vivo do governador com o médico e cientista Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Nordeste no enfrentamento da covid-19. “Um número para servir de alerta, sobre ônibus, para aquele que acham muito exageradas (as medidas de restrição). No dia 24 de abril, o Nordeste teve 437 casos. No dia 30 de abril, sete dias depois, fomos para 736 municípios, quase dobramos. Isso dá uma noção de como o fluxo rodoviário ajuda espalhar a covid-19″, explicou Miguel Nicolelis na transmissão realizada nesta segunda-feira.

Consórcio Nordeste “segue a ciência”
Na entrevista ao Jornal Brasil Atual, o governador falou da importância da articulação entre os estados nordestinos para unir esforços no combate à pandemia. “O Consórcio Nordeste tem sido um instrumento extraordinário”, diz.

“Dentro do Consórcio, um dos pontos principais foi uma decisão unânime de seguir a ciência, tendo a Organização Mundial da Saúde como referência e, ao mesmo tempo, trabalhando em uma perspectiva desse comitê científico com Miguel Nicolelis, que coordena uma equipe de mais de 1,2 mil cientistas do Nordeste e do mundo. Temos incorporado pessoas da Europa, América do Norte, China, e isso nos permite ter informações atualizadas sobre o pouco que se conhece do coronavírus”, explica.

Dias também destaca as iniciativas tomadas a partir do trabalho do comitê científico. “Estamos fazendo testagens acima do que faz o Brasil, exames que a gente faz em todos os municípios para saber quais têm coronavírus. Hoje, temos em 72 dos 224 no estado do Piauí. Ao mesmo tempo, estamos fazendo uma pesquisa por amostragem para saber o grau da contaminação. Aqui, ele é 8,5 vezes mais do que aquilo que entra na rede de saúde. Se estamos com 800 pessoas confirmadas, estamos na verdade com 6,5 mil pessoas com coronavírus”, ressalta, abordando a necessidade de se ter uma precisão maior do número de pessoas contaminadas. “Isso mostra que o problema é muito maior do que a gente imaginava.”

Falta coordenação nacional contra o coronavírus
Também auxilia na coleta de dados o aplicativo Monitora Covid-19, com o qual as pessoas podem estabelecer uma comunicação rápida com profissionais de saúde. “Já foram 4 mil consultas e com base nisso se faz uma classificação das pessoas que não têm sintomas, de quem tem leve ou não”, detalha o governador. A plataforma permite georreferenciar, mapear e classificar cada caso de acordo com sua gravidade, possibilitando o posterior atendimento presencial e mesmo a internação caso seja necessário.

Outra iniciativa tomada pelo Consórcio Nordeste é a criação da Brigada Especial de Saúde, equipes destinadas a combater o coronavírus formadas por profissionais de saúde, estudantes, médicos formados no exterior e voluntários para prestar assistência às famílias.

Mesmo com a articulação de governadores do Nordeste, Wellington Dias diz ainda ser necessária a efetivação de um plano com diretrizes nacionais para um combate mais efeito à pandemia. “A gente se ressente da falta de uma coordenação nacional. O Piauí não é uma ilha, não pode trabalhar como uma ilha, nem o Nordeste. O que acontece em cada lugar nos afeta, o ser humano é o vetor do coronavírus e as pessoas estão em movimento”, afirma.

“Estamos cobrando o (governo do) Brasil para se fazer testagem em massa, vacinação para as outras gripes, apoiar fortemente para comprarmos ou produzir equipamentos. Faltam como respiradores, EPIs, monitores… Há a necessidade de se ter um plano nacional para combater o coronavírus.”

Influência negativa
A falta de uma política nacional acaba afetando o planejamento de estados e municípios, segundo o governador. “O Piauí tinha comprado 21 respiradores de uma empresa e 59 de outra, as duas de São Paulo, e o Ministério da Saúde bloqueou. Isso tudo vai desmantelando. No primeiro momento do coronavírus, por volta de 15 a 18 de março, quando recebi as primeiras três internações de pacientes graves, tínhamos 30 UTIs disponíveis naquele instante, hoje estamos com dez vezes mais e precisamos de vinte vezes mais”, aponta.

Wellington Dias também avalia que a postura do presidente Jair Bolsonaro acaba influenciando de forma negativa o comportamento de seus seguidores e mesmo de administrações municipais. “Isso que acontece em Brasília, a partir dos sinais que o presidente dá, tem efeito no estado, tem seus seguidores, pessoas que vão criando essa linha de desobediência. Em Parnaíba, o prefeito e ex-senador Mão Santa adotou uma medida de abertura do comércio e tive que ingressar com uma ação. E o Tribunal de Justiça, pelo conflito de competência, determinou que fossem seguidas as regras do estado, que têm sintonia com o momento.”

“Precisamos de tempo, estamos com o quinto melhor isolamento social do Brasil. E queremos manter uma condição para qualquer pessoa que precisar ter atendimento”, diz. “O melhor caminho neste instante é evitar a contaminação. E isso tem a ver com o tempo necessário para ampliar a rede de atendimento, com mais UTIs, salas de estabilização, leitos clínicos. Estamos praticamente dobrando nossa capacidade de atendimento de pacientes graves no estado do Piauí. O que fizemos em 60 anos temos que fazer em 60 dias para evitar o colapso da nossa rede.”

Assista ao vídeo da entrevista:


Por RBA