Moro diz que palestras são “bem pagas” em novo vazamento do Intercept

Compartilhe agora!
Foto: Mídia Ninja.

O ministro da Justiça Sérgio Moro não tinha do que reclamar do valor das palestras, segundo nova reportagem da #VazaJato publicada neste domingo (4) pela Folha em parceria com o site The Intercept Brasil. O ex-juiz elogiou em conversa com o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, a remuneração em um dos eventos que participou.

“[…] do Grupo Sinos, lá de Novo Hamburgo, pediu seu contato. Ano passado dei uma palestra lá para eles, bem organizada e bem paga”, elogiou em conversa pelo Telegram com Deltan no dia 22 de maio de 2017.

O problema não foi Moro e Deltan darem palestras e cobrarem por isso. Fazia parte do negócio deles, além punir adversários políticos e ideológico, também ganhar dinheiro. Mas segundo os repórteres Paula Sperb e Ricardo Balthazar, da Folha, e Amanda Audi, do Intercept, o ex-juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba deixou de informar a atividade remunerada ao TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), de Porto Alegre.

Moro relatou ao TRF4 que participou 16 eventos externos em 2016, que incluem 9 palestras, 3 homenagens e 2 audiências no Congresso Nacional. No entanto, a palestra no Sinos não aparece na declaração do atual ministro e ex-juiz.

LEIA TAMBÉM
General Mourão quer as sobras das forças armadas norte-americanas para o Brasil

Defesa de Dallagnol inviabiliza continuidade de Dodge na PGR

Inquérito da fake news no STF pega a velha mídia e bolsominions

Desde junho de 2016, uma resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) determina que os magistrados registrem suas atividades externas mas os desobriga de informar o valor de cachês em eventos remunerados.

A Folha e o Intercept estimam que Moro ganhou nessa palestra da Sinos entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, mas há quem acredite que algumas outras tenham extrapolado essa cifra.

Para que o leitor possa fazer uma comparação, o salário líquido de Moro naquele setembro de 2016 (época da palestra) foi de R$ 28,4 mil.

A reportagem ainda recorda que Deltan Dallagnol, parceiro de acusação e de palestras com Moro, teria faturado R$ 400 mil em cachês só no ano passado. Nesse ano de 2018, o coordenador da Lava Jato recebeu R$ 428 mil de salário líquido como procurador.

O CNJ considera as palestras de Moro e Deltan como atividades docentes, por isso não proíbe que sejam remuneradas.

Também nunca é demais comparar o preço das “aulas” do ex-juiz e do procurador, que têm duração média de uma hora, com o valor da hora aula dos professores das redes pública e privada.

De acordo com informações de sindicados da educação, a maior média salarial é do ensino superior privado, de R$ 88,14 por hora de aula. Já o salário do professor universitário de ensino público é de R$ 48,25 por hora.

Abaixo, a íntegra das conversas vazadas pelo Intercept, via Folha:

Em maio de 2017, o então juiz Sergio Moro disse ao procurador Deltan Dallagnol que um grupo privado queria convidá-lo para uma palestra.

22.mai.2017
Sergio Moro
19:25:02 […] do Grupo Sinos, lá de Novo Hamburgo, pediu seu contato. Ano passado dei uma palestra lá para eles, bem organizada e bem paga.

Deltan Dallagnol
22:58:10 Passa sim! Abraços

Em 2018, Deltan foi a Novo Hamburgo fazer uma palestra no mesmo teatro em que Moro esteve em 2016 e contou à sua mulher que reduzira o cachê.

15.mar.2018
Deltan
19:59:10 […], baixei meu valor aqui pra 10k espontaneamente porque, embora ele não tenha comentado nada, perguntei se estava sendo deficitário e estava. Embora ele tenha dito que risco era deles, rádio ganha em imagem etc, preferi fazer essa concessão, até porque nosso objetivo não é financeiro.

[…]

22:39:40 Tudo bem […]. Lotação “baixa” de umas 400 ou 500 pessoas acho, mas no tamanho do teatro somem… de qq modo, foi ótimo. Ficaram vidrados, aplaudiram no meio e de pé ao fim. Engajados.

Informações de natureza pessoal e mensagens sobre outros assuntos foram suprimidas nos pontos indicados com o sinal […]

A transcrição das mensagens manteve a grafia original dos arquivos obtidos pelo The Intercept Brasil

Compartilhe agora!