Por Enio Verri

Autoritarismo é a política de quem não tem autoridade

Publicado em 02/07/2019

Educadores respondem à provocação de Ratinho mobilizando 15 mil pessoas; para governador do Paraná, só 4% das escolas estão paralisadas; grevistas afirmam que adesão é de 90%. Foto: divulgação APP-Sindicato.

Carlos Massa Ratinho Júnior não precisou de mais de seis meses para mostrar sua face autoritária. O governador elegeu-se com um discurso conciliador de que atenderia os pleitos dos servidores públicos. Já empossado, chegou a montar um grupo para tratar das demandas dos trabalhadores públicos do Paraná, mas sem nenhuma ação efetiva para tal. Apesar de reuniões, nenhuma decisão por parte de quem tem esse poder. Por mais de 100 dias, o governador tergiversou até que os trabalhadores tomaram essa medida extrema, de entrar em greve.

Trabalhadores não entram em greve por motivo torpe ou para prejudicar o atendimento. Servidores públicos têm plena consciência do que é a paralisação de um atendimento, pois vivem isso na pele quando algum governo da vez decide cortar esse ou aquele serviço, lotar salas de aula da educação básica, fechar posto de saúde ou deixar de fornecer determinado material. É absurda a atitude de Ratinho de ameaçar a classe trabalhadora com sanções contra o legítimo direito de greve. Principalmente porque foi ele quem forçou a paralisação. Desesperado, diante da mobilização, o governador ameaça desconto salarial e demissão de quem aderir à justa e legítima greve.

Esse autoritarismo revela falta de autoridade para administrar um estado tão complexo quanto o Paraná. O governador mente para a população e a coloca contra os servidores públicos, quando diz que terá de aumentar impostos para atender o modesto pleito dos trabalhadores, um reajuste de 4,96%, referente apenas à perda inflacionária dos últimos 12 meses. Policiais, professores, médicos, enfermeiros e tantas outas categorias de servidores públicos do Paraná acumulam uma perda de 17%, desde 2016, sem um único reajuste. É como se os servidores deixassem de receber, em um ano, dois meses de salários. Isso é um programa de desinvestimento no Estado.

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Porém, o autoritarismo do governador foi de encontro com a indignação dos servidores e a disposição deles para defender a dignidade do serviço público estadual. Desde o primeiro dia, a greve é marcada por intensa agenda de mobilizações e tentativas de reunião com o governador. As reuniões e ocupações dos grevistas acontecem em várias partes do estado, enquanto Ratinho ignora o problema. De acordo com a APP-Sindicato, cerca de 90% das escolas participam da greve e mais de 50% da categoria aderiram a ela. A cada dia, mais um setor dos serviços públicos, mais um servidor indignado, aderem à greve. O movimento não para de crescer e ganhar mais força.

O governador entrou numa ratoeira construída por ele mesmo. Prometeu, não cumpriu e não tem argumentos para negar a demanda. Segundo Ratinho, não há margem fiscal para cobrir a inflação dos últimos 12 meses. Porém, o Fórum das Entidades Sindicais, com dados da Secretaria de Fazenda, já demonstrou que o Paraná tem mais de R$ 2 bilhões em caixa. Um estadista se reuniria com os servidores para anunciar o reconhecimento do direito. De quebra, com dinheiro sobrando, construiria capital político para 2022. Porém, a ideologia do Estado Mínimo, preconizada pelo governador,

o impede de se livrar da cegueira política de eleger o serviço público como inimigo. O Brasil é um dos países do mundo com menos servidores públicos, por habitante. Cerca de 2% da população. Quando se compara com Alemanha, 11%, EUA, 15%; Finlândia, 25%; Suécia, 29%, Noruega, 30%, vê-se que os servidores públicos brasileiros são heróis. O discurso privatista, de enxugamento do Estado, não pode ser uma coisa boa para um dos países mais desiguais do mundo. A privatização do Estado é a privação do acesso para os pobres

Os corajosos servidores públicos merecem todo o apoio e solidariedade da população. O governador teria feito muito bem, ontem, se observasse a mobilização de 15 mil pessoas, aproximadamente, de várias partes do estado, que marcharam sobre a Praça Cívica a fim de demonstrar que Ratinho está lidando com um movimento que tem a consciência da pauta pela qual luta, que é a dignidade do serviço público. As pautas são as mais justas e legítimas. Elas vão desde o pagamento da data-base, à humanização na perícia médica do Estado, passando pelo direito de greve, a retirada do PLC 04/2019 e a abertura de concursos. Está nas mãos do governador a decisão de como ele pretende passar para a história, se como estadista, ou se como um agente do mercado financeiro.