Por Enio Verri

O nacionalismo é a pauta

Publicado em 04/06/2019

Entre tantos vagalhões enfrentados, desde 2016, na procela do desmonte do Estado Democrático de Direito em que o Brasil foi jogado, uma bela e árdua conquista demonstra ao governador Carlos Ratinho Jr. o estratégico papel das universidades estaduais e a contribuição delas para a formação do capital político econômico e social do Paraná. Desde ontem, o Hospital Universitário Municipal de Maringá, o HUM, da Universidade Estadual de Maringá, não corre mais o risco de sofrer uma Interdição Ética. O motivo da ameaça do CRM-PR se devia em razão de escalas médicas incompatíveis com a oferta do serviço. Durante cerca de 150 dias, a sociedade maringaense se uniu para reverter a situação. Por meio de uma ação integrada, hospital, UEM e a Secretaria de Saúde de Maringá construíram as táticas para conseguir a suspensão da sanção que afetaria não apenas a população de Maringá, porém mais de 60 mil pessoas que têm o HUM como referência.

O problema das escalas se dá, eminentemente, por falta de pessoal. Desde 2014, não há concursos e o hospital que atende a 115 municípios vinculados à 15ª Regional de Saúde, já perdeu quase 140 servidores. No entanto, o HUM é mais importante e houve um encontro sinérgico entre os atores com poder de decisão política. De um lado, mais equipes do hospital se dedicando aos plantões. Do outro, com um planejamento construído em parceria, desenvolveu-se uma logística tal, que permitiu desafogar o atendimento no Pronto Atendimento. Na adversidade, com R$ 5 milhões contingenciados, sem pessoal a mais, foi feita uma balbúrdia tal que impediu o fechamento da Urgência e Emergência do hospital. Essa bela conquista impeliria um líder a suspender todo e qualquer projeto de contenção de investimento nas universidades e a incrementar o poder de suas ferramentas científicas e tecnológicas.

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Foi a decisão de atores políticos que impediu o fechamento da Unidade de Pronto Atendimento, por onde passam, mensalmente, cerca de cinco mil pessoas. A vitória de toda a sociedade paranaense força o governador, ainda que não mude de posição, a entender que o campo ideológico que o elegeu e para quem ele governa, que o Estado Mínimo serve apenas para favorecer a uns poucos, em detrimento de muitos. É lamentável que, à frente do Paraná, esteja um governo alinhado com uma elite financista que age deliberadamente para instalar uma sociedade de extrema concentração de renda e individualista. Em curto prazo, aumenta-se a pobreza. Em médio e longo se aprofunda e se institucionaliza a miséria. Torna-se paisagem indissociável do dia a dia. Porém, para a elite, a miserabilidade é indiferente, ela não é alcançada por aqueles de quem o Partido dos Trabalhadores gosta, os pobres. Ela simplesmente não tem contato.

A Finlândia, até os anos 1960, era um país inexpressivo. Investiu pesado em Educação e, hoje, é um dos principais centros de criação tecnológica e inovação do mundo e o terceiro país menos corrupto do mundo. O professor é uma figura muito respeitada por toda a sociedade. Para exercer a profissão, é necessário ser aprovado em exames extremamente exigentes. Outra coisa, lá não existe escola particular. Os filhos do banqueiro e do lixeiro estudam juntos, desde a alfabetização à universidade. Por óbvio, o filho do banqueiro tem outras formas de diferenciar o seu capital cultural dos demais colegas. Porém, do ponto de vista educacional e tecnológico, o acesso é o mesmo. Nesse sentido, é fundamental que a população de Maringá leve para a paralisação do dia 14, essa pauta. A conquista social alcançada com as instituições públicas e as pessoas de espírito público foi coletiva. Coisa impensável na proposta de uma sociedade individualista.

De acordo com um relatório, de posse da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o único agente político jurídico que investe de forma relevante em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico é a Petrobras. A conquista do HUM é um marco em meio a uma conjuntura na qual prevalece a defesa do mercado em detrimento da sociedade. Haja vista a proposta do ministro da Economia, Paulo Guedes, que pretende constitucionalizar a desvinculação total dos investimentos obrigatórios, como em Educação e Saúde. O endereço desses recursos não será outro senão o mercado financeiro, secando a torneira para a sociedade. Ratinho tem a oportunidade de demonstrar para quem governa, para a totalidade da população e para o estado do Paraná, ou para uma concentrada elite sem compromisso com o outro. A julgar pelo indicativo de greve dos servidores da UEM, o governador não entendeu absolutamente nada do que aconteceu no HUM. Definitivamente, os estudantes do Paraná devem procurar unir as pautas com os trabalhadores em defesa de uma educação pública e de qualidade, financiada pelas superavitárias estatais. Esse modelo de educação só será alcançado com um país soberano e democrático.