Cappelli: O recado de Lula

Publicado em 28 abril, 2019

O jornalista Ricardo Cappelli traduz a entrevista de Lula à Folha e El País. Para o articulista, o ex-presidente aprisiona seu partido junto a ele, em Curitiba, para a não ser abandonado.

Cappelli vê erros do petista ao escolher o procurador Deltan Dallagnol como alvo e desprezo de aliados, como Ciro Gomes, mas ressalva a importância de Lula para os futuros caminhos.

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“Lula sabe que a relação com Ciro acabou em separação litigiosa. Sabe também que o PT jamais apoiará o PCdoB. E Boulos, segundo ele mesmo, não têm votos”, escreve Cappelli.

Leia a íntegra:

O RECADO DE LULA

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Ricardo Cappelli*

Como todo mestre da política, Lula nunca expõe claramente o seu jogo.

Na entrevista concedida aos jornalistas Mônica Bergamo e Florestan Fernandes, Luiz Inácio passeou por diversos assuntos. Repetiu a fórmula econômica de seus governos e centrou fogo em Moro e Dallagnol.

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Dar tanto valor ao procurador parece ter sido um escorregão. Na política, você é do tamanho do adversário que escolhe para brigar.

Perguntado sobre o quadro político, o ex-presidente repetiu o roteiro do dia de sua prisão.

Quem ele cita como quadros importantes? Ciro Gomes, chamando-o de intolerante. Flávio Dino, Governador do PCdoB. Boulos, “aquele menino que não têm votos, mas que vai crescer muito”. Foi excesso de humildade, esquecimento ou cálculo não citar ninguém do PT?

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Vamos voltar ao sindicato dos metalúrgicos no fatídico dia da prisão. Quem foram os dois braços levantados por Lula naquela ocasião? Algum do PT? Acertou quem disse Manuela e Boulos. Em seguida fez um longo discurso sobre seu papel na construção do PT. Coincidência?

Antes que os apressados digam que ele citou Haddad na entrevista, é bom prestar atenção nos detalhes. Foi Mônica Bergamo quem o obrigou a citar o ex-prefeito de SP.

E continuou, sem citar nomes, falando dos governadores da Bahia, do Ceará e do Piauí. Nominalmente, citou apenas a governadora Fátima Bezerra, um quadro valiosíssimo, mas sem horizonte nacional. Gleisi Hoffmann? Jaques Wagner?

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Onde fica Rui Costa, governador reeleito do quarto colégio eleitoral do país, líder de uma gestão que vai completar 16 anos de poder com alta aprovação popular?

Haddad e os Baianos parecem sonhar com a sucessão interna. Lula parece ter outros planos.

O ex-presidente “levanta novamente o braço de aliados”, mas reafirma que cabe ao PT, segundo ele dono de 30% do eleitorado, a liderança do campo.

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Lula sabe que a relação com Ciro acabou em separação litigiosa. Sabe também que o PT jamais apoiará o PCdoB. E Boulos, segundo ele mesmo, não têm votos.

É natural o maior partido reivindicar a liderança. Mas o ex-presidente vai além. Afirma que está louco para sair da cadeia e correr o país. Que quer disputar as eleições.

Até 2022 teremos uma eternidade. Pelos sinais da entrevista, Lula não parece disposto a abrir caminho para ninguém, nem mesmo do PT.

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Luiz Inácio é um gigante. Após um ano de cárcere inaceitável, se mantém impávido. Desconhecer ou rejeitar seu papel histórico só possui duas explicações: ódio de classe ou ejaculação precoce de quem acredita que irá se construir sapateando por cima do seu cadáver.

Da mesma forma, o campo popular e democrático precisa reconstruir seus caminhos. Condicionar movimentos à benção de qualquer santo de devoção, por mais forte que ele seja, é outro equívoco.

Dificilmente o ex-presidente sairá da cadeia no curto prazo. A inabilitação eleitoral perpétua parece uma realidade.

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Ao aprisionar o PT consigo em Curitiba, Lula se previne do pecado do abandono. Por outro lado, embota a possibilidade de construções políticas mais amplas, caminho para a alteração da correlação de forças no país.

No drama do cárcere e lutando desesperadamente por sua biografia, o gigante envia um recado preocupante. Não é um bom sinal.

*Ricardo Cappelli é jornalista e secretário de estado do Maranhão, cujo governo representa em Brasília. Foi presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) na gestão 1997-1999.